As Cruzes e a Espada

Masonic Papers by Bro. S. Brent Morris 33º G.C. – The High Degrees in The United States : 1730–1830
Maio 31, 2019
York Rite 2020 Portugal Annual Joint Meeting
Fevereiro 7, 2020

As Cruzes e a Espada

Tantos mundos se cruzam num só mundo,

numa só pessoa e num só momento…

Fugíssemos nós para o pobre cubículo das racionalidades, onde nada se produz nem se reproduz que não seja o julgarmos que é nele que tudo se produz e reproduz, e viveríamos num só mundo onde paredes de pedra fria nos impediriam de ver que é para além delas que há mais sol e mais lua. Mas, muitos de nós não nos queremos esquecer de quem somos; queremos lembrarmo-nos de que só com os olhos abertos para todos os lados merecemos os olhos que nos deram. E, como alguns sabemos, os olhos vêem coisas que nós julgamos perceber e coisas que nós julgamos não entender. Triste seria que as não quiséssemos ver e mais triste seria ainda que só abríssemos os olhos para vermos o que os outros julgam ver.

Assim cogitando, encaminhei-me por uns córregos, que vão dar a outros córregos, sabendo que iria encontrar pessoas que vivem hoje neste mundo, pessoas que vivem hoje noutros mundos e pessoas que nunca viveram em mundo nenhum. Que eu saiba…

Acerca do percurso que segui nada perguntei aos deuses; deixei-os guiarem-me, tão grande é a confiança que tenho nos deuses que criei. E ainda menos perguntei aos letrados, sabedores de certezas requentadas, donde já não brotam dúvidas nem suspeições. Fosse eu pelo caminho que me indicassem e entenderia o mesmo que eles entendem, da forma como eles entendem e o que eu quero é entender o que eu for capaz de entender sem deixar de ser eu.

Agora, depois de ter andado muito, estou sentado, serenamente, a meditar no que aconteceu no País onde nasci no tempo em que eu nele gostaria de ter nascido. E, como já expliquei, não quero ficar prisioneiro do racional, só comprovadamente racional; evito as construções feitas com tijolos todos iguais, cozidos no mesmo forno, à mesma temperatura; ainda que demore mais, tentarei encontrar mármores e granitos, porque quero alojar com dignidade as figuras que quero convidar para os meus pensamentos.

Vou recomeçar a caminhada por esta longa subida que me vai levar a um monte donde se pode ver muito, muito longe.

Já cheguei. Estou à procura de um local para me sentar mas… eis que passa por mim um cavaleiro. De todo ele brota nobreza; das feições, da expressão, do porte, do gesto, do modo como cavalga, mandando no cavalo sem o ferir com as esporas. Parou por momentos no ponto mais alto do caminho. Para olhar ao longe, tão longe que não percebo o que estava a ver. Só depois me explicarão que todos os outros, como eu, não verão tão longe como este cavaleiro porque os horizontes dele estão muito mais distantes. Agora que se afasta, e só agora, vejo que uns passos à frente um velho está sentado num tronco tombado. Encara-me e pergunta:

– Sabes quem é aquele cavaleiro?

Porque lhe respondo que não, diz-me num tom quase declamado:

– É o Infante das Sete Partidas, os menos exigentes chamam-lhe D. Pedro e alguns até Regente ou mesmo Duque de Coimbra. Sabes que peregrinou por todo o lado? Não só pelas sete partidas. Quando alguém contou a viagem que o Infante fez às Terras do Preste João, alguns usaram o triste direito de duvidarem que o Infante lá tivesse chegado. Como perceberás, as dúvidas nunca chegaram ao Infante; porque ele sabe que esteve em todas as terras do Preste João e não ouviu sequer as dúvidas dos que nunca foram a Terra nenhuma, muito menos às do Preste João. E para ti, quem é o Infante?

De cima dos meus magros saberes respondo que sei bem quem é o Infante e antes que o meu interlocutor possa colocar qualquer dúvida, acumulo referências ao Infante, a seus pais, a seus irmãos, à torpe acção dos Braganças e dos seus cúmplices que se serviram do pusilânime D. Afonso para, servindo Castela, levaram o Cisne à morte, e…paro quando pressinto que o meu arrazoado está a originar um vago sorriso de ironia. Melindrado, pergunto:

– O que é que estou a dizer que não seja verdadeiro?

Com um olhar distante, o velho diz-me:

– Tudo isso é verdadeiro. São as verdades que todos conhecem. É bom que percebas que as verdades que todos conhecem não são as mais importantes. As mais importantes são as que poucos conhecem. Porque estás interessado em percorreres o teu caminho, fazendo ouvidos de mercador ao que dizem as palavras arrumadas em sólidas prateleiras, mas desperto para os indícios que permitirão escolhas mais livres de certezas, guarda o que te vou dizer.

Este príncipe, que tanto amamos, é Regente de Portugal, pelos seus altos méritos e porque por isso se bateu, mais do que qualquer outro, o seu irmão, o Infante D. João, que é o mestre da Ordem Militar de Santiago. E, meu amigo, se quiseres saber quem é esse homem que agora passou, tens de saber muito mais. Tens de sentir donde ele vem, seguindo sempre pelas pegadas que deixou e que marcaram, profundamente, a História do País onde nasceste desde que cumpriu o destino de procurar todos os Prestes Joões onde quer que eles se encontrem e, se mais não marcaram foi porque as forças que apagam as luzes foram, por um tempo, mais fortes do que as forças que acendem as luzes.

É verdade que andou por este e por outros mundos, mas é mais importante perceber porque é que andou pelo mundo. É verdade que escreveu de Bruges ao rei seu irmão. Mas é mais importante perceber porque é que escreveu o que escreveu a seu irmão; porque é que queria que em Portugal fossem criadas dez universidades. É verdade que andou pelas cortes da Europa onde se fez respeitar e admirar, mas mais importante é perceber porquê. E mais importante ainda porque ficamos a compreender o homem que se bateu por que em Portugal nascesse uma sociedade mais justa, mais culta e mais moderna “ordenada numa doce e forçosa cadeia de benfeitorias” como escreveu.

Foi ele quem escreveu também na “Virtuosa Benfeitoria”: “ Um só cuidado devem ter os príncipes, guardar em todas as suas obras o proveito dos seus súbditos e esquecer os próprios desejos. Outro mandado é que, por tal maneira curem eles o corpo da comunidade que, em dando saúde a uma parte, não desamparem o todo. Disto se usa muito o contrário”. Se meditares bem no significado destas palavras, serás tentado a compará-las com as que serão escritas, daqui a um século, por um italiano, um tal Nicolau Maquiavel, que irá tentar ensinar um príncipe. Neste caso, é o próprio príncipe quem ensina…

Ainda, não há muito, talvez o saibas, num dia em que o Infante passava, com o seu irmão Henrique sobre a ponte de Coimbra, este, ao olhar as armas da cidade que apresentavam uma mulher sobre um cálice amamentando um leão e uma serpente, comentou que o leão era Castela e a serpente o timbre das armas de Avis, sendo Pedro a figura que alimentava Castela de um lado e Portugal do outro, ao que Pedro retorquiu: -“Não vês o cálice, meu irmão? O cálice pode conter o vinho e o sangue, e porque não o Graal? Ou a taça cruel do infortúnio…”. Quando puder falar com ele, perguntar-lhe-ei se nesse momento pressentiu que aquele seu irmão se comportaria para consigo de forma dúbia, mesmo hostil, como aconteceria em Alfarrobeira.

Duvido que me responda, como não me responderá se lhe falar na insistência deste mesmo irmão, que quase sozinho tudo fez para que o reino se aventurasse na tão insensata arremetida sobre Tânger que custou, para além da derrota e dos mortos sofridos, a ignominiosa prisão e posterior morte do irmão de ambos, o pobre Fernando.

Foi por essa altura que a meada cujo fio persegues se começou a mostrar mais claramente, ainda que, no que diz respeito a D. Henrique, muitas vezes o protagonismo que conquistou e o que lhe atribuíram, tenha deixado na penumbra muitos episódios que deves estudar para que possas ter uma opinião justa a seu respeito.

D. Henrique adoptou como filho o segundo filho de seu irmão, o rei D. Duarte, Fernando, deixando-lhe, por testamento, “ todos os seus bens, raízes e móveis”. Não te esqueças, para que no decorrer da tua viagem possas perceber melhor as teias que os fados montaram que D. Henrique era, também Duque de Viseu. O mesmo fez, antes do desastre de Tânger, o Infante que será conhecido como Santo. Lembro-te também que esse Infante, perfilhado por D. Henrique, casaria com D. Beatriz, neta de D. João I e do primeiro Duque de Bragança. Começarás a ver um pouco mais claro se souberes que, contra os hábitos dominantes, D. Beatriz chegaria a Governadora da Ordem de Cristo, honra que coube entretanto não só a D. Henrique como a D. Fernando.

– Que grande e complicado enredo…

– Estás muito enganado. É o mais claro e até o mais clássico de todos. Unicamente há duas linhas, exactamente como há dois pratos numa balança – igual à que está representada no escudo do Infante das Sete Partidas – como há o justo e o injusto, como há o bem e o mal, como há o sonho e o calculismo.

– Admiro o teu saber e peço-te que me digas para onde foi o Infante, depois de ter passado por nós.

– Ainda não percebeste. Não passou. Está aqui. Porque em cada tempo se vivem todos os tempos. Estará sempre aqui porque anda por todo o mundo. Basta que o sintas.

– Mas porque é que um homem tão notável teve um fim tão triste?

– O fim a que te referes, não foi o fim. Se o tivesse sido não o teríamos visto passar agora e não estaríamos a falar dele. O Infante só deu uns passos para o fundo do palco. De lá vê tudo o que acontece nos tempos que são os das nossas vidas. Muitas vezes se emociona, se alegra, se entristece, mas poucas vezes se admira. E só se admira poucas vezes justamente porque é ele um dos autores da peça.

– Mas, porque aconteceu o que aconteceu depois de ele ter apontado os caminhos do futuro?

– Voltamos aos pratos da balança. Ele é a vontade de ser um Galaaz do sonho, da cultura e da justiça. Tem uma espada resplandecente à qual se juntam as dos Avranches, mas no outro prato estão as nossas humanas dependências, os nossos magros interesses e as nossas pobres vaidades. E, não fiques desiludido. Sempre assim foi, sempre assim será. Aceita um conselho: deverás sempre olhar mais a luz que ele nos dá do que a escuridão que os outros, para desgraça deles, têm o dever de transportar.

Pensativo, despedi-me do velho agradecendo-lhe o desafio que me tinha feito para que eu seja capaz de ver melhor e assim saber mais. Estranhei, quando me voltei para trás uns metros depois, e já não o vi. Durante muito tempo andei, sempre pelo caminho que eu tinha escolhido, Sem saber onde ele me conduziria, até que encontrei, um pouco afastado da vereda, um homem de meia-idade que cumprimentei e afavelmente me ofereceu água. Estava eu a beber quando ouvi aproximar-se um ruidoso grupo que, levado por cavalos a trote, cobriu os arbustos à nossa volta de poeira e tornou o céu mais baço. Quando olhei o meu novo companheiro vi que a sua expressão tinha mudado. Estava agora sisudo e com a testa enrugada. A mão com que segurava o ancinho agitava-se nervosamente e dos seus lábios saíram palavras murmuradas sopradas pelo rancor:

– Corja! Ainda não estarão satisfeitos?

– Porque os olhas assim?

– Não os vistes bem? No meio, aquele homem trajado com mais luxo é o rei D. Afonso V. Fala e esbraceja pedindo a atenção dos outros, que fingem dar-lha. Ele é um homem bom que julga em cada momento que está a cumprir todas as obrigações que cabem a um rei. No entanto, é um rei que pouco manda porque é muito influenciável; gosta de dar o que é seu e o que é da coroa. Quem de facto manda são aqueles todos que vão à sua volta. Ele pode muito mas é capaz de pouco. O seu ânimo é fraco e não consente que ele seja quem gostaria de ser. Eles, Braganças, a que se juntam acólitos vindos em busca de proventos e cetins, servem-se da fraqueza do rei. Depois da morte de D. Pedro, levaram D. Afonso a perseguir muitos dos seus seguidores, incluindo familiares que, como sabes eram também familiares do próprio rei. Por enquanto, lá vão cavalgando pela estrada da inveja e do ódio e que lhes é apontada por Castela ao serviço de quem se colocaram na esperança de virem a ser compensados. Como se de Castela pudessem vir bons ventos…

– Mas, ao que sei, ele é um valente soldado…

– É verdade, mas a um rei pede-se mais que seja um grande general do que seja um valente soldado. Em Toro, a desorganização da hoste que comandava conduziu-o à derrota, que teria sido bem funesta para Portugal se em seu socorro não tem ocorrido o seu filho, o Príncipe D. João, que logrou vencer o inimigo. Já por essa época o pai admirava o filho e mais o admiraria nos anos seguintes. Julgo que D. João é o homem que D. Afonso gostaria de ser. Terá dito já que, gostaria bem mais de ser governado pelo filho do que ser ele a mandar nele.

Foi talvez em Toro que começou a perceber que nunca alcançaria os horizontes para os quais sempre correu. Sentiu que o seu braço não podia com tamanha empresa. Deixa-se sempre envolver em tramas e conflitos que não podem ser resolvidos só com a espada. Procura a glória em África conquistando praças-fortes umas atrás das outras, mas é humilhado em França por um rei tortuoso no corpo e na alma, que não sabe manejar uma espada mas que sabe manejar a astúcia. Porque a sua visão da política e do mundo terminam na ponta da espada, continua a bater-se pelo prosseguimento das conquistas em África, em zonas, que sendo o prolongamento do seu reino possam ser socorridas e apoiadas com facilidade não aceitando os argumentos dos que, como seu tio Henrique querem ir mais longe, muito mais longe.

– Surpreende-me que assim seja, porque julgo que é um homem culto, até me dizem que tem muitos bons livros e que é o primeiro rei a ter uma livraria no paço.

– Assim será e isso mais penoso lhe tornará o destino porque vai crescendo o fosso entre o mundo que ele cria no seu íntimo e o mundo que ele vê à sua volta.

Caminhará para dias de grande abatimento e a sua grande esperança será, até ao fim dos seus dias, o filho. Cedo quis confiar-lhe os negócios do reino. Fê-lo, como te lembras, quando da mal sucedida ida a França e foi então muito comentado que, apesar de todos estes que ali vão à sua volta afiançarem que D. João não lhe devolveria o trono, o pai e o filho deram-lhes uma bela lição, não só porque a devolução se realizou, como porque foi feita com o maior respeito e até carinho.

E, para que possas julgar melhor este homem que já divisamos com dificuldade e que iniciou o reinado com a morte de um dos mais luminosos príncipes de Portugal, digo-te que, e a respeito da aventura marítima dos portugueses que, por ele ter reconhecido que não tem alma para olhar os caminhos dos mares desconhecidos, quase abandonados desde que D. Henrique morreu, em 1460, a imensa tarefa é entregue a D. João tendo-lhe atribuído, há pouco, as rendas da Guiné e de tudo o que já foi descoberto para que as passe a administrar.

– Queres-me dizer que os portugueses se irão lembrar deste rei como de um homem que, apesar da sua insegurança, tenta ser útil ao seu povo, carregando sempre com a tristeza de não ter atingido as grandes ambições que o acompanham desde a juventude?

– Lembrar-se-ão do rei que, sem muitas vezes o pretender, teve uma mão na regência de D. Pedro e outra no reinado de D. João II. A educação que recebeu e as funestas influências que sobre ele se abateram, impedem-no de ser o rei que abre os largos portões da modernidade, mas tenho para mim que alguns dos méritos do seu sucessor foram por ele semeados. Só por isso, que é muito, merece o respeito dos povos deste reino.

Separei-me do homem que, com o ancinho prosseguiu na sua tarefa de limpar o terreno de silvas e tojos e fiz-me ao caminho. O tempo prometia tempestade; o vento, soprado de muitos lados fazia rodopiar folhas, ramos e poeiras. Num instante, a trovoada estalou, com relâmpagos a desenharem ameaças e luta nos céus que, impávidos, assistiam da sua eternidade. Tentei esconder num abrigo qualquer a minha humana pequenez. Procurei, procurei, mas não encontrei um sítio onde me pudesse acolher. Todas as minhas roupas estavam cheias de água e, com o corpo enregelado, senti medo. Muito medo. Quem me poderia valer naquele ermo onde todas as forças da natureza se tinham virado contra mim? Estava já em desespero quando a tempestade, subitamente abrandou. Em curtos momentos, o vento parou, a trovoada calou-se, as nuvens afastaram-se e o sol lá muito em cima iluminou todo o cenário. Os meus medos fugiram e surpreendi-me ao ouvir pela estrada acima os passos de um cavalo. De um só cavalo, montado por um homem com expressão severa mas tranquila que me faz lembrar por um momento o Infante das Sete Partidas ainda que o rosto e o corpo sejam bem diferentes.

Ao passar junto a mim, com um gesto nobre mas afável saudou-me. Admirado, cumprimentei-o com o respeito que a sua figura impunha. Depois, fui para o meio da estrada vendo-o afastar-se e, com tanta atenção o olhava que não senti que um homem novo, saído não sei donde, chegara muito perto de mim. Disse-me:

– Não te esquecerás deste dia. Tiveste a honra de seres saudado por el-rei D. João II.

– Como sabes? Perguntei, sem querer acreditar.

– Não viste como a própria natureza o tratou respeitosamente? E não sabes tu que só a natureza sabe tudo?

– Mas como é possível que um rei como ele vá sozinho por uma estrada tão cheia de perigos?

– Por que é D. João II. Ao longo do caminho, dos dois lados estão escondidos malfeitores de todos os tipos. Alguns com aspecto medonho, outros com as armas dos cavaleiros, outros com as luxuosas vestes com que cirandam na corte e até, para triste surpresa tua, com imponentes vestes sacerdotais.

– E perante tamanhas ameaças ele vai só?

– Não. Confia na sua astúcia e na força do seu querer. E, para que o comeces a perceber, sempre te digo que, se os seus inimigos, que são também os inimigos do reino, vigiam todos os seus passos, também eles são vigiados pelos homens do rei. E assim será até ao último dos seus dias, quando, finalmente, os assaltantes abaterem o pelicano e, com ele fecharem o sonho num cofre que nunca mais será aberto.

– Sei quem foi D. João II. Mas o que sei é um conjunto de conhecimentos insípidos, incolores e sem som que foram filtrados pelos que pensam muito racionalmente com os pés presos na terra e que não têm coragem de olhar por cima dos muros.

– E que devem ser respeitados quando agem honestamente. Mas creio que tens razão. Que devemos, se quisermos entender D. João II, ir ao seu encontro, para o que temos de nos libertar de amarras e de voar acima das nuvens.

Para darmos um primeiro passo no mundo onde vive e que é seu, poderemos começar pela esmeralda partida, mas, porque a tua jornada é comprida, andemos mais depressa e talvez seja melhor aproximarmo-nos para que possamos ouvir alguma conversa entre D. João ainda criança e sua tia Filipa, filha de D. Pedro. A lenta reabilitação da memória deste, avô de D. João, é aproveitada por Filipa – também de Lencastre – para enaltecer junto do jovem príncipe o vulto de seu pai, ao mesmo tempo que com natural acrimónia, aponta com dedo implacável os responsáveis pela morte do cisne, precavendo o príncipe para o que tais indivíduos representam e para os perigos que no futuro o poderão fazer correr. Outras figuras da corte que só por receio não mostram maior apreço por D. Pedro vão levando a verdade a D. João, a verdade que hoje lhe é tão útil.

Ainda era adolescente e já o rei seu pai o ouvia com respeito, tendo tomado várias decisões por ele pressionado e contra o parecer dos que até aí dele se tinham utilizado. A chegada à cena de D. João permitiu a D. Afonso, que tanto precisava de bordões, substituir a influência dos nobres de quem crescentemente desconfiava pela influência do filho onde encontrava firmeza e segurança. Foi assim já quando da ida a Arzila como foi quando da tomada de decisões políticas com as Cortes reunidas.

Mas se, em especial nos seus primeiros anos, D.João olhou o pai com admiração, porque via nele um grande guerreiro, cedo percebeu que tinha de fazer uma opção clara entre dois modelos. Um representado por seu tio-avô, Henrique e outro por seu tio-avô Pedro. Regista, e o futuro te poderá insinuar coincidências, que um era o Duque de Viseu e o outro o Duque de Coimbra. A escolha que fez foi clara: à sua divisa, “ pela sua lei e pela sua grei”, juntou o pelicano, que ferindo o peito, garantiu o sustento dos filhos. Espero que te recordes da frase de D. Pedro que há pouco te foi lida.

D. João herdou o trono e pouco poder, os seus inimigos, não têm o trono mas têm muito poder. E a luta, mortal, é entre o rei que quer mais poder e os seus inimigos que querem o trono, desejo que têm desde o século passado. Ao rei não bastam as estradas, ele está a construir um reino para o futuro, o que o próprio seu avô Duarte já tentou com a sua Lei Mental, a qual encarou a frontal oposição dos descendentes de D. Nuno Álvares Pereira. Só assim Portugal se libertará dos senhores feudais. E o povo está com o rei a quem chamará um dia o Príncipe Perfeito. Desde o primeiro dia, e não esquece que, quando seu pai precisou da sua ajuda na campanha que culminou em Toro, D. João, sem dinheiro para custear as despesas com o exército, foi buscá-lo onde ele se encontrava sem pedir licença a ninguém, às rendas, a alguns empréstimos, à prata das igrejas e dos mosteiros, mas não pediu nem deixou que tirassem uma moeda que fosse ao povo.

Porque que os ares de Tomar não lhe pareciam favoráveis, e respeitando a acção empreendida por D. Henrique, pegou na luz que este aí tinha acendido e levou-a para Palmela. Não te esqueças de que estamos a falar de um homem de grande inteligência e não menor argúcia. Anos antes de subir definitivamente ao trono e na época em que o pai andava por França em devaneios políticos, já D. João estruturava a Ordem de Santiago, muito provavelmente já a olhar o futuro. Ordem que ficará nas suas mãos ou nas dos seus filhos durante muitos, muitos anos. Não deves esquecer que a Ordem de Santiago era, até ao momento em que o infante D. Henrique passou a governar a Ordem de Cristo a mais poderosa Ordem do nosso reino. Por imposição de quem quer moldar a História, somos levados a esquecer que foi a Ordem de Santiago que conquistou a maior parcela do sul do que é hoje o nosso reino. Como recordarás que em seguida à morte do Infante a Ordem de Cristo perdeu grande parte da sua importância. Ora D. João associa Tomar às sombras que têm vindo do Norte, do Leste e de Castela e que transportam mortes e insídias e pareceu-lhe mais avisado escorar a política em que congeminava em terreno mais seguro, enquanto os seus inimigos tacteiam mapas que nem sempre entendem.

– Tão grande tem sido a importância das Ordens Militares…

– Alguém te falará delas mais adiante. Mas sempre te adianto que as Ordens foram muito úteis mas atravessaram fases de grande apagamento. E um episódio ocorreu que merece reflexão: ia D. João nos seus dezassete anos quando nas cortes de Coimbra lhe pediram para chamar a si a condução da vida de todas as Ordens, que atravessavam um período de apagamento e até de desorganização, o que, se denota que já então eram reconhecidas as qualidades do príncipe, também mostra como as Ordens não tinham o poder que queriam ostentar. Sugiro-te que registes que, tendo assumido o mestrado da Ordem de Santiago em 1472, logo em1474, apoiando-se justamente nos espatários, chamou a si a política atlântica. Cedo percebeu, como D. Henrique já tinha percebido, que, para que Portugal permanecesse independente, eram necessários mares, terras e ouro. Mas, continuemos. Não com a descrição dos muitos episódios de que tu, como os outros portugueses, tendes conhecimento, mas de algumas situações que permitem perceber melhor que homem é este rei.

Ao longo de toda a sua vida, que, só durou quatro décadas, e para além de algumas que viveram escondidas atrás dos reposteiros ou na sombra de grandes senhores, várias personagens estiveram sempre presentes. Se uma dessas personagens é a rainha com quem o casaram na esperança de que o casamento uniria o que as ambições e as invejas teimavam em desunir e que, em especial nos últimos anos da vida do rei, mostra bem de que lado está, outra personagem que sempre está presente, mesmo quando se encontra longe, como agora, é D. Jorge da Costa. Ainda que seja referido com frequência, quero lembrar-te que este homem, que começou por ser conhecido pelo Jorge Martins-da-Enxerga, foi mestre de D. Catarina, irmã de D. Afonso V, fez, a pedido da Rainha D. Leonor o Regimento do Hospital das Caldas da Rainha, foi Bispo de Évora e Arcebispo de Lisboa e, porque tivesse sentido que os ventos não lhe corriam de feição ou porque é muito ambicioso, inventou um pretexto para se fixar na corte do Vaticano onde, ao que dizem, só não foi ainda Papa porque não quer. Talvez tenha contribuído para essa mudança de poiso o facto do ainda jovem D. João ter ameaçado num certo dia mandar atirá-lo ao rio. Soubesse então o rei o que sabe hoje… O certo é que, embora tecendo, diplomaticamente, algumas loas ao rei, sempre foi um utilíssimo servidor dos inimigos deste, tendo intrigado muito contra a pretendida legitimação de D. Jorge, filho de D. João e de D. Ana de Mendonça. Se pode ser defendida a sua intervenção em favor dos interesses dos Reis Católicos porque julgaria que assim servia melhor a universalidade da Igreja, não merece senão o mais fundo repúdio a carta que, dizem, escreveu e mandou ao rei. Tal carta, que mostra bem a massa de que é feito o Cardeal foi dirigida a D. João no momento mais triste da vida deste, quando da morte do seu filho Afonso.

D. Jorge da Costa, adejando as asas do ódio que tão mal escondia, com inaudita crueldade, que só podia ser exibida por quem estava a quatrocentas léguas do rei e se encontrava sob a protecção papal, acusava o rei de “esquecer a sua alma e a sua salvação ao lamentar um pedaço de carne que de vós se apartou e que é mais propriamente um pouco de esterco e podridão”.

Muitos outros homens se bateram, com maior dignidade uns do que outros contra D. João, mas pergunto-te: alguma vez pensaste em que D. João se tem havido com maior facilidade com os homens do que com as mulheres?

– Nunca em tal pensei. Mas a que mulheres te referes?

– A três, embora bem diferentes umas das outras. A primeira, por ser a mais velha, é D. Beatriz, sua sogra e portanto mãe não só de D. Leonor, como dos sentenciados Duques de Bragança e de Viseu a qual, como te lembrarás, foi governadora da Ordem de Cristo, ela que enviuvou de D. Fernando, filho adoptivo do Infante D. Henrique. As malhas que teceu com a corte de Castela, sempre tendo na mira os interesses dos seus familiares Braganças e dos apaniguados destes, foram secundados de forma cada vez mais evidente por sua filha Leonor, a segunda mulher com quem D. João se defronta, que tem sofrido fortes agravos de seu marido e que é mais sugestionável do que D. Beatriz. O último grande sonho do rei, pelo qual se bateu até ao fim, a legitimação de D. Jorge, contará até ao fim com a tenaz oposição de ambas, que apoiam muito empenhadamente a causa de D. Manuel, filho de uma e irmão de outra.

– O povo não aprecia muito D. Leonor. Muitos são os que a associam às disputas internas e às pretensões dos castelhanos…

– Como não são menos os que murmuram que a criação das Misericórdias lhe é atribuída justamente para que seja mais estimada, quando é certo que terá sido o trinitário frei Miguel Contreiras o primeiro a propor tão bela medida e que até D. Jorge da Costa esteve implicado na criação da Misericórdia de Lisboa. Maior reconhecimento mereceu o rei, que criou o Hospital de Todos-os-Santos, no Rossio de Lisboa, cujas obras tem ido ver todos os dias.

– Mas tens de aceitar que a rainha tem uma vida muito difícil. Desde o seu casamento com o então futuro rei que está no meio de uma procela que não domina porque os elementos são muito mais poderosos do que ela; não podemos esquecer que lhe foi confiada uma missão muito acima das suas capacidades e, de que tem assistido à morte de irmãos e do filho e à afronta de ver o fruto da relação que seu marido teve com Ana de Mendonça a ser levado pelo seu marido até ao trono que deveria ser do filho de ambos.

– Terás alguma razão, mas deves aceitar que se a rainha for até ao fim da vida do rei mais sua esposa do que membro da sua família de origem a história de Portugal será bem diferente da que se prenuncia… Creio que não te estarás a lembrar da maior inimiga do rei; e que é, de entre todos os que se incorporaram nas tremendas forças que o combateram, o seu mais poderoso adversário.

– Estás a apontar o dedo à rainha Isabel, a Católica.

– Evidentemente. Neste tabuleiro onde se jogam destinos de nações e de homens, muitos são os peões e muitos outros os que mostram talentos e capacidades, mas a vitória, apesar de, desde o início da contenda estar escrita, já que D. João está quase sozinho no seu campo, só tombará para o lado adversário porque este conta com uma mulher que, pela sagacidade e firmeza é uma muito forte contendora. Acrescento que D. Isabel e D. João, apesar de serem inimigos se respeitam, justamente porque cada um reconhece a estatura do outro.

– Não é a altura, porque vais de caminhada e te importa mais ver o caminho todo, para assim perceberes melhor donde vem e para onde vai, do que valorizares cada obstáculo ou cada curva que surge, determo-nos sobre os pormenores vividos pelo homem que passou por nós nesta estrada de que não nos deixam conhecer o fim, mas, ainda te quero pedir mais uns momentos para que melhor o fiques a conhecer.

Ainda não tinha ascendido ao trono, no período em que o seu pai andou em divagações políticas por França e já ele mostrava as suas aptidões políticas nas conversações que desembocaram nas Tercerias de Moura e nas quais foi estabelecida uma bem urdida malha que salvaguardava os interesses do reino e do seu futuro. Se todos admiram a forma habilíssima como esgrimiu, rodeado de inimigos quando das discussões que culminaram em Tordesilhas, sabendo guardar as armas do falcão e só utilizando as da coruja, com inteligência e com discrição, as mesmas que, durante séculos, impediram que fosse desvendada a nacionalidade de Colombo, descobridor que pouco descobriu, poucos são os que se interessam em saber o que aconteceu entre o dia em que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo e o dia em que Vasco da Gama chegou a Calecute. No entanto, o que de muito importante então ocorreu e que teve funda repercussão nos acontecimentos futuros, nasceu do génio daquele homem, daquele homem só, que apesar de cavalgar tão direito na sela, leva sobre os ombros toda a esfera armilar.

Só os néscios, ou os que foram empurrados para outras certezas, é que poderão esquecer que a celebrada viagem de Vasco da Gama, cavaleiro da Ordem de Santiago, só será possível porque ele próprio já fez outras viagens a mando de D. João II.

Só a bem montada política de encobrimento, quer do rei quer depois a que os seus inimigos farão relativamente à sua obra, será capaz de esconder que o seu filho, D. Jorge, na qualidade de Mestre da Ordem de Santiago, atribuirá, em 1495, logo a seguir à morte do pai, duas comendas a Vasco da Gama, “ pelos muitos serviços que tinha prestado a seu pai e pelos serviços que, espero, adiante fará”. Que serviços? Quem quiser descobri-los não tem mais do que recordar os muitos quintais de bolacha que têm sido fornecidos às frotas que, sem registo dos nomes dos comandantes nem das rotas determinadas, vão oceano dentro, justamente nos anos que antecedem a grande viagem de Vasco da Gama. Pensa também em como seria imprudente confiar a maior responsabilidade pela realização desta viagem a um inexperiente e quase desconhecido comandante.

Da mesma forma deves olhar para a viagem de Pedro Álvares Cabral, também ele cavaleiro da Ordem de Santiago, que descobrirá o que já está descoberto desde há anos. E assim melhor entendes porque eu disse há pouco que há duas políticas de secretismo: a do rei e a dos seus inimigos. Se o rei quer sempre defender os interesses da coroa portuguesa, o vasto concílio dos seus inimigos poderá, ao não permitir que sejam atribuídos o mérito e a honra de todos estes gloriosos sucessos a D. João, colocá-los, com falsidade, nos braços do seu sucessor, membro e principal beneficiário da acção do concílio. E ficará claro, para todos e para sempre, que D. João foi o rochedo que impediu durante largo tempo que a torrente imensa, criada pelas causas de Madrid e pelos pretextos do Vaticano, que tudo quer levar à frente, tome o Mundo e destrua Portugal. De muitas armas se serve e, porque as utiliza com argúcia e discrição, suspeito que durante muitos anos a sua luta não será percebida em todas as frentes em que peleja.

Acrescento, para que possas cogitar mais um pouco: Daqui a uns anos, creio que em 1507, Vasco da Gama, já então elevado à nobreza, será, como a sua família, por determinação de D. Manuel, assente em proposta de D. Jorge, Mestre da Ordem de Santiago, expulso de Sines, terra desta Ordem e cujo senhorio lhe será concedido entretanto. Passará então, e só então, a integrar-se na Ordem de …Cristo., sendo-lhe retiradas as comendas atribuídas pela Ordem de Santiago.

Meu amigo: as palavras que acompanham a muito significativa atribuição das comendas a Vasco da Gama, que serão escritas muito pouco depois da morte do rei, em Dezembro de 1495, soar-me-ão sempre como se forem proferidas de um alto promontório por um homem que assim dirá, para a eternidade, pela única boca que o poderá fazer, a do seu filho, que tudo foi pensado, que tudo está pronto, que as caravelas de Portugal poderão ir para além de todas as Taprobanas e que ele, o Príncipe Perfeito, pode sair de cena para, de longe e do alto, a poder contemplar.

Tudo o que era humano e tudo o que era terreno dominou com a mente e com o braço. Só contra os astros nada podia fazer. Eram estes que o guiavam e depois de, através dos deuses, o terem ajudado a afastar os medíocres que lhe saltaram ao caminho, começaram a ser-lhe funestos, quando pareceram aliar-se aos seus inimigos. Alijou bem duques e marqueses, iludiu ciladas e venenos, mas quando lhe retiraram o filho Afonso, quando a sua mulher enfileirou mais despudoradamente nas hostes que queriam a sua destruição e a destruição do reino, manobrando com o Papa, com altos dignitários da Igreja, com os Reis Católicos, com os nobres que o eram de título mas não de alma e com tantos outros que nada eram e queriam as migalhas que cairiam do trono, juntou as forças que ainda tinha e, com as mãos agarradas ao leme, levou o seu filho Jorge até junto do trono, onde já não lhe foi possível erguê-lo. Só então o corpo cedeu; a alma não cedeu, nem cederá nunca. Creio que é por isso que tantos acreditarão que deverá ser canonizado. Como se ele precisasse de tal reconhecimento…

Fiquei ainda durante largo tempo, sentado debaixo de uma árvore de grande copa, a meditar em tudo o que tinha ouvido. Ocorreu-me até que, aquilo a que chamamos destino por não lhe sabermos dar outro nome, segue por estranhos caminhos. Não percebo porque razão esse tal destino fez com que o nosso rei mude desta para outra vida na casa do homem que tempos depois será o sogro de Vasco da Gama…

Sentia-me enriquecido mas não podia esquecer que a vida, os homens e outras fontes que ainda não identifiquei, me têm ensinado que os rios, sejam serenos ou caudalosos, não podem parar e que levam as correntes a conhecerem margens que tanto podem ser alcantiladas como baixas e arenosas. Foi com o céu parado e cinzento que me decidi a continuar a minha viagem em busca dos outros e de mim.

Andei muitas léguas sem ver ninguém. Só no fundo de um vale me apercebi de um vulto que, parado, com o rosto sem expressão, me esperava. Perguntei-lhe quem é. Com voz neutra, respondeu-me:

– Sou um clérigo da Ordem de Santiago.

– E porque me esperas?

– Para que possas perceber melhor o grupo que se aproxima e para que possas perceber o significado da a presença de todos os que ali vêm.

– Que grupo tão estranho…

– Tão estranho que parece o elenco de uma das tragédias com que os gregos enriqueceram os homens. E, se reparares bem, cada um dos actores representa-se a si mesmo. Mas nem por isso deixam de ser personagens de uma grande e belíssima tragédia.

Olha com atenção, para que nunca mais te possas esquecer deste grupo. No meio, vem naquele belo cavalo, um homem triste. É D. Jorge, filho de D. João II; é Duque de Coimbra, mestre da Ordem de Santiago e mestre da Ordem de Avis. Junto dele, vai D. Pedro, o Infante das Sete Partidas, que já conheces e que é seu bisavô, de quem D. Jorge herdará mais do que de seu pai, embora tal se venha a verificar por intervenção deste. Do outro lado do Duque, com os olhos nele cravados, segue sua tia Joana, que será celebrada como Santa Joana a Princesa e que, como saberás, foi jurada sucessora da coroa antes do nascimento de D. João. Foi ela quem criou D. Jorge, desde os primeiros meses de vida até aos dez anos de idade no convento, em Aveiro quando se finou com trinta e seis anos, talvez levada como tantos e tantas outras, pela peçonha.

Atrás, irrequieto como será toda a vida, vai o moço de câmara de D. Jorge. Chama-se Fernão Mendes Pinto e já está a pensar em ir pelos mares fora correr todos os riscos, beber pela taça maior e cantar em alta grita e com largos gestos a todos os que o quiserem ouvir, e mesmo aos que o não quiserem ouvir, as aventuras que vai correr, e outras que, se não correr, poderá vir a correr. Aquele rosto não engana, tem pressa de viver a vida; pouco tempo o segurará em Palmela e, quando voltar a casa, no Pragal, muitos séculos de vida depois, só lamentará não ter corrido mais perigos e não ter cavalgado mais mares. Irá escrever um belo livro, com cheiro a maresia portuguesa, de que alguns não gostarão mas no qual todos gostariam de ser figuras principais.

E, ainda mais atrás, vem uma mulher de meia-idade, ainda bela, muito discreta, que, montada numa mula, não perde, por um momento que seja, de vista o seu filho Jorge. É D. Ana de Mendonça, que o rei João muito amou e que vai agora viver para o convento de Santos-o-Novo, da Ordem de Santiago. Curiosamente, o convento que este substitui, o convento de Santos-o-Velho, fica situado também sobre o rio, do lado oposto de Lisboa, a ocidente da cidade e foi no local onde foi construído que a Ordem de Santiago, por volta de 1172, se instalou pouco depois de ter chegado a Portugal. Há noticia de que a Ordem há muito ali criou um convento para mulheres, o que não é vulgar em Ordens Militares. D. Jorge, que sempre tem sido um bom filho, atribuiu-lhe as rendas do reguengo e lugar de S. Gião, junto a Palmela, propriedade da Ordem.

– Que actores para uma bela tragédia…Tens razão.

– Que é vivida por D. Jorge, com grande dignidade, num castelo que me lembra, muito, um outro que fica bem distante, o de Elsinor.

– Compreendo a que aludes. Nesse outro castelo também viveu um príncipe a quem assassinaram o pai. Mas D. Jorge viverá no castelo de Palmela até ao fim dos seus dias e não o atacarão nem tentarão assassiná-lo como fizeram com tantos dos seus ascendentes…

– Bem pior farão. Porque, mais cruelmente, nem sequer o deixarão viver.

– A sua vida será assim tão triste?

– Não duvides. Depois de ter vivido com sua tia em Aveiro, foi recebido na corte com alguns sorrisos e muitos ódios. Tudo parecia, para alegria de seu pai, anunciar um futuro tranquilo quando D. Afonso, seu irmão, morreu. A presença do bastardo e, mais do que esta, a sua simples existência, fizeram esconder os sorrisos, porque de peão sem importância se tornou numa figura central nas lutas pelo poder. Os inimigos de seu pai, acoitados no reino e fora dele, sentiram um novo ânimo, porque, não conseguindo vencer D. João estavam a posicionar-se, sem grandes esperanças, para viverem no reinado de seu filho D. Afonso que, admitiriam, prosseguiria a política que tanto hostilizavam. Agora, tinha chegado a hora de tentarem todos os esforços. Era o momento único em que poderiam, rodando o leme, fazer o barco retomar a rota antiga, tradicional e feudal onde muito podiam e pouco deviam.

Contando um a um os que se encontravam do seu lado, ainda que por motivos diferentes, e na convicção de que existia legitimidade formal na pretensão, voltaram todos à carga levando içado o pendão do apagado e resguardado Duque de Beja, cedo nomeado Governador da Ordem de Cristo, que assim era arvorado em candidato à sucessão de D. João. Para que este decisivo esforço fosse coroado de êxito era necessário afastar D. Jorge das proximidades do trono, isto é, que o Papa não concedesse a sua legitimação. D. João tudo tentou para se opor, uma vez mais aos desígnios dos seus adversários. Num primeiro lance, logrou que o Papa, então Inocêncio VIII, satisfizesse os seus desejos relativamente à nomeação de D. Jorge como Mestre das Ordens de Santiago e de Avis, títulos que tinham pertencido a D. Afonso. Julgou-se então, através das informações que os eficientes agentes do rei recolheram, que o Papa tinha mostrado estar aberto à principal pretensão que ansiosamente D. João lhe dirigira. Todavia, porque os ventos soprados pelos deuses tivessem mudado de direcção, este Papa pouco mais tempo de vida teve. Foi substituído no trono por Alexandre VI, pontífice de que a Igreja muito se envergonha. De origem espanhola, da zona de Valência, é pai de muitos filhos, alguns dos quais bem conhecidos, como César Bórgia e Lucrécia Bórgia. Ainda que o rei, que sabia que D. Jorge da Costa continuava a intrigar no Vaticano em favor dos seus inimigos, embora tentasse manter a capa de respeitador do rei, não dispusesse de mais armas para se bater pela legitimação de seu filho, tudo continuou a tentar, só admitindo, na encosta final da sua vida, ceder na luta pela candidatura de D. Jorge ao trono, tentando uma via desesperada: a de casar-se novamente, tentando assim forçar a criação de um herdeiro cuja candidatura não fosse questionada e evitando que toda sua obra, concluída e projectada, fosse oferecida aos seus inimigos. Mas a sua luta estava a chegar ao fim e todos o sentiam. Quando, respeitando os formalismos exigidos pela situação, ditou o seu testamento, expressou, entre outras vontades, duas: a de que o seu sucessor, levado aos ombros até ao trono por grandes figuras com a ajuda de pequenos serventuários, se comprometesse a que uma futura filha sua casasse com D. Jorge e a de que a este fosse entregue o mestrado da Ordem de Cristo. O novo rei não satisfará nem um nem outro destes desejos. Se é compreensível que não satisfaça o primeiro, mais compreensível é que não satisfaça o segundo. A ordem de Cristo desde há muito que é o bastião dos que se opõem à política de D. João II e ao tipo de estado moderno que ele sempre defendeu e não poderia, nunca, ser entregue nas mãos do seu filho.

D. Jorge organizou administrativamente as Ordens de Santiago e de Avis, para o que muito serviu a sólida cultura que armazenou durante anos, ainda que tenha posto maior empenho em tudo o que diga respeito à vida da primeira, na sede da qual viveu durante décadas. Aí promoveu Ordenações e Visitações, como actualizou os Regulamentos das Ordens, para o que estudou os que eram observados nas Ordens espanholas congéneres. Recorda-te da origem de uma, Uclés, e de outra, Calatrava. Mas… vendo que não tinha meios, nem o génio do pai, submeteu-se ao novo senhor que, em diversas ocasiões mostrou com dureza que era ele quem mandava e tudo podia, salvo quando se curvava perante os Reis Católicos. Foi o que sucedeu quando D. Manuel levou a Castela, integrado na sua comitiva D. Jorge. Meu amigo viajante: nós os clérigos de Santiago e muitos bons portugueses, sentimo-nos então humilhados e profundamente ofendidos, porque o rei foi mostrar aos reis, que respeitava e temia, que tinha o filho do Homem dominado e submisso e dele não podiam partir os gestos de genial dignidade do pai. Pensei então que os Reis Católicos terão acentuado a opinião que já teriam de D. Manuel: a de que dele também não brotariam os gestos de genial dignidade tão próprios do seu antecessor.

Quando D. Jorge tiver percorrido a Via Crucis que os deuses, pouco generosamente, lhe destinaram, o Mestre, então já viúvo, apaixonar-se-á. Porque a mulher que irá escolher é muito mais nova do que ele, o rei, que será então D. João III, figura que será modelada pelas mesmas cartilhas que modelaram o pai, não consentirá no enlace, que por isso não se chegará a realizar.

Uma pergunta vejo nos teus olhos, eu, que tanto gostaria de poder responde-la, porque já muitas e muitas vezes também a fiz:

– Que rei teria sido D. Jorge se o Príncipe Perfeito tem saído vitorioso da sua derradeira luta?

Não tenho resposta e, pelo contrário, tenho outras perguntas a fazer:

– Que Portugal seria o nosso? Continuaríamos a cavalgar o sonho? Mais uma vez só os deuses nos poderão responder. Mas não sou eu que lhes vou perguntar, porque estou triste com eles. Deixaram matar o Infante das Sete Partidas, deixaram morrer tão cedo, e também só eles sabem como, o nosso rei João, o mais rei de todos os reis e agora, deixam ir, estrada fora, para lado nenhum, escoltado pelos que o amam mas prisioneiro de todas as forças que o seu pai derrotou, o filho que, com a sua expressão triste mostra bem a dor que a sua alma grita por saber que todos nós estamos tristes. Seu pai, no testamento, nesse derradeiro e supremo momento em que pôde apontar um caminho, fê-lo com profunda clareza, e todos nós que o conhecemos, percebemos o que quis dizer quando doou o ducado de Coimbra a D. Jorge “na forma e maneira que o rei D. João seu bisavô a doou a seu avô o Infante D. Pedro”. O que aumenta a nossa tristeza por vermos que D. Jorge não pode com o peso de tão grande missão. Os seus talentos, bem maiores do que os seus algozes propalam, não foram pelos deuses bafejados com a centelha do génio, nem a masmorra dentro da qual vive o consente. Por isso ali vai, levando consigo o resto das nossas esperanças…E quando chegar ao fim, mostrando bem que os bens materiais e as tolas honrarias não lhe interessam, o único bem que vai deixar em testamento aos seus descendentes será um pobre paul na península de Tróia.

Com vagar, sem alegria, continuei a cumprir a minha missão andando, andando, vendo, vendo, tentando juntar o que vou ouvindo. E foi quando os desinteresses e os desânimos apontavam para o pouco que vale a pena e quando o céu, pardacento, com nuvens paradas, onde só uma vez por outra o sol irrompe e ilumina toda a paisagem, que chego junto de um jovem, de ar prazenteiro e despreocupado. Gosta de ter companhia e logo me diz porque está tão alegre:

– Vem aí D. Manuel e disseram-me os ventos que a sua comitiva tem muitos cavaleiros vestidos com grande luxo e, ainda me disseram mais: que irei ver coisas que nunca foram vistas no nosso reino.

Ficámos a aguardar a passagem do cortejo durante muito tempo. Só depois perceberia porque demorou tanto. Finalmente irrompe; os cavalos, ricamente ajaezados, transportam homens da nobreza que, vindos de Bragança, Ourém, Barcelos e até de Castela, olham com arrogância o mundo que à sua volta sabem ser seu. Logo atrás, músicos competem entre si para levarem os sons para além das serranias, enquanto pelo meio deles bobos e truões troçam dos outros e de si próprios em alta grita e com as momices que agradam aos senhores que lhes dão de comer. Mas a minha surpresa, e a surpresa do meu jovem companheiro, aumenta quando vemos que alguns escravos trazem, seguros por grossas correntes, enormes animais que eu nunca vi. O rapaz, que estava mesmo ao meu lado, foi borrifado com perfume por um animal monstruoso, maior ainda do que os outros, o que o deixou maravilhado.

Só algum tempo depois consigo que me preste atenção. Pergunto-lhe:

– Mas, no meio de todo aquele espavento, quem é o D. Manuel?

Pouco satisfeito por afastar, ainda que por um momento, a atenção do cortejo que tanto o entusiasma, responde-me:

– Parece-me que é o nobre que vai no meio dos outros, vestido com muito luxo, com um ar pesado e mortiço. Lembro-me agora melhor: é ele de facto, tem o olhar matreiro de quem vai para onde os outros o querem levar mas que acaba sempre por conseguir o que quer, sem grande esforço.

– Mas para quê tanto luxo e tanta ostentação?

– Todas as cortes vivem assim. Não sabes já como se vive no próprio Vaticano?

– É verdade. Estão esquecidos da importância do espírito, de que é ele quem conduz os nossos passos e de que é ele que avalia quem somos e o que fazemos. E mais devemos estranhar estes comportamentos quando nos lembramos de que muito do poder que estes nobres exibem foi conseguido através de alianças com a Igreja e com as suas muitas formas de interferir na vida de todos nós.

– Não te preocupes. Já aprendemos que o mais importante é o ouro. Quem tem ouro, pode ter tudo. E não foi por isso que D. Manuel fez com que os portugueses chegassem à Índia?

– Não foi D. Manuel quem conseguiu que os portugueses chegassem à Índia. Ele só aproveitou o que D. Henrique sonhou e projectou e, ainda mais, o que D. João concebeu e organizou. Arguto e dissimulado como é, colheu os frutos das árvores que herdou e agora vai saboreando com deleite cada um. Como perceberás, aproveita o manto da discrição para esconder a escassez dos seus méritos

– É o que o povo diz, mas isso para mim pouco interessa. Como também diz que foi feita justiça nos que pretendiam aniquilar D. João, mas que resguardaram D. Manuel para o colocarem no trono logo que pudessem. Mas isso não me importa, o que me importa é que é no tempo de D. Manuel que cá chega o ouro. E foi pelo ouro feito com especiarias que fomos à Índia.

– Alguns foram em busca da riqueza, mas outros tinham sonhos bem maiores.

– Não há sonho maior do que o de ser rico.

– Digo-te que há, e bem maiores. E é por esses sonhos que deveremos estar prontos a morrer, para assim merecermos mais a vida.

– Não percebo.

– É natural que não percebas. Naquele cortejo vão muitos que também não percebem. São os que só conhecem esta vida pobre ainda que se vistam ricamente. Nunca perceberão que há mais vidas. E essas outras vidas são bem mais dignas de serem vividas do que esta que D. Manuel e os que o rodeiam gozam para darem satisfação às suas vaidades, aos seus medos e àqueles de quem dependem.

– Mas tens de reconhecer que os meus sonhos podem ser diferentes dos teus. E que todos os sonhos nascem de quem somos. Sou muito novo mas já aprendi que as máscaras, além de não nos deixarem respirar, enganam mais os que as usam do que os que as olham. Eu prefiro D. Manuel porque, enquanto D. João forçava as circunstâncias, ele ajusta-se às circunstâncias. Enquanto D. João desafiava, a cavalo, os Reis Católicos, D. Manuel, se necessário a pé, sujeita-se a ser um vice-rei dos Reis Católicos. Mas fá-lo calculadamente, casando e voltando a casar se necessário. É verdade que tem muita sorte mas também é verdade que, astutamente, evita guerras e confrontos e ainda mais os evita com quem tanto fez para o colocar no trono. Porque julgo perceber em que estás a pensar, aceito que, com as suas capacidades pouco mais poderia fazer. Sempre tentou a coerência, manobrando os seus, ainda que muitas vezes tenha sido ele o manobrado. Dentro dessa coerência, naturalmente que guardou para si a Ordem de Cristo… Posso até profetizar que um dia ela será entregue nas mãos de seu filho. Seria contra a corrente que tal não se viesse a verificar…

– E é esta corte, com gente de muitos tipos que, como já provou, está disposta a tudo para impedir que a modernidade que D. João começou a impor cresça, tanto mais que o povo, com muitos anos de queixas dos senhores, poderá reagir a um retorno às velhas tradições onde os privilégios germinam. Interessa por isso a estes senhores uma renovação que salve as aparências mas que lhes respeite os bens e as mordomias. 

Não podes esquecer que, logo que D. João fechou os olhos foram devolvidos solicitamente aos seus inimigos os bens que o rei lhes tinha confiscado.

– Para mim é bom que não haja guerras. E não serão com certeza os nobres apoiantes de D. Manuel que hostilizarão Castela, aqui na península, nos mares ou em terras distantes. Porque conseguiram o que queriam, tronos, riquezas e a satisfação dos seus orgulhos feudais. A força que os mantém unidos, e que aparentemente é muito superior à que apoiava D. João não seguirá D. Manuel se este tiver um assomo bélico. Verdade seja dita que ele nunca terá nenhum assomo bélico. O calculismo que determina todas as suas acções não o permite. Ele tem sonhos de grandeza mas conhece bem até onde o talento e a força de ânimo o deixam ir.

É por tudo isto, igualmente determinado pelo meu calculismo, que eu gosto de viver no reinado de D. Manuel. Já admiraste os belos monumentos que mandou construir? Como aqueles junto ao rio?

– Já. São de facto muito belos e aprecio que ele proteja as artes. Mas tal não é suficiente para que eu o julgue um grande rei, muito menos quando o comparo com D. João. E a História registará que, enquanto D. João construiu um templo de esperança na alma de um povo, D. Manuel está a cavar os caboucos para que nunca mais nos libertemos de uma acomodada e vil tristeza.

Não fiquei agradado com a conversa que mantive com o jovem que há pouco deixei para trás. Sinto que os interesses materiais se estão a sobrepor aos interesses espirituais, que o que vemos e o que brilha é mais importante para muitos do que o que nos conduz e nos eleva. A minha procura está porém a chegar ao fim. Já vi muito e julgo ter entendido algumas das muitas coisas, das que podemos entender, que estão na origem de comportamentos que arrastam as vidas dos povos. Mas só algumas dúvidas afastei, muitas mais são as que guardo e, julgo, guardarei. E, agora mesmo vou tentar perceber um pouco melhor que papel foi destinado às Ordens Militares e sopesar a forma como o desempenharam. Agora, porque quando o caminho começa a alargar-se, rompe, ocupando toda a largura do caminho uma multidão de cavaleiros que ostentam mantos, que ostentam espadas, que ostentam escudos e são acompanhados por homens a pé, muitos dos quais envergam hábitos religiosos, que os seguem esforçadamente

Vejo que param ali adiante, talvez para descansarem um pouco. Vou falar com estes dois que ficaram para trás. Um é clérigo, o outro é um cavaleiro que se apeou. Aceitam falar comigo, digo-lhes quais são as minhas dúvidas. Com sobranceira relutância, o cavaleiro antecipa-se e diz-me:

– Sabes que já existiram muitas Ordens Militares e também sabes porque foram criadas. Aparentemente para proteger os peregrinos que se dirijam aos lugares santos, para conquistar ou defender os lugares santos e para lutarem contra os infiéis onde quer que se encontrem. São, de facto mais do que isso, e a História de Portugal o prova. Começaram por ser milícias dependentes do Papa e que, no nosso caso, têm passado para o domínio dos reis à medida que a Reconquista avançou. Desde há anos que têm perdido fulgor e têm sido utilizadas em lutas políticas. Mas não esquecemos que estivemos nos campos de batalha e nos descobrimentos.

– É verdade, retorqui, mas sei que cada Ordem vive a História de forma diferente. Ao progressivo apagamento das Ordens do Hospital e de Avis correspondeu uma maior actividade política das outras duas. E devo dizer que me parece que há muito perderam de vista as razões que estiveram na origem da sua criação. E pergunto-te, clérigo:

– Um dos mais apregoados objectivos dos descobrimentos, nos quais participaram empenhadamente as Ordens, foi a evangelização. Que trabalhos têm as Ordens feito para evangelizar os povos dos territórios descobertos?

– Nenhuns ou quase nenhuns. A evangelização tem sido feita por franciscanos e por dominicanos.

– Pois muito me admira o que dizes, tanto mais que, em especial a Ordem de Cristo proclama o seu interesse pela espiritualidade. Ou será que, foi justamente no tempo em que o Infante D. Henrique foi seu Governador, que a Ordem adoptou apetites mercantilistas que deram origem a que hoje, e julgo que assim acontecerá no futuro, distribua com ambas as mãos comendas por quem já não pensa em guerrear e muito menos em evangelizar?

– Não estás a ser justo. A Ordem de Cristo é a que mais se interessa por assuntos espirituais e, creio, que tal será reconhecido no futuro.

– Sei que assim é; mas também sei que é mais seguro apontar a herança quer patrimonial quer militar que receberam dos Templários do que, expurgados os mitos, a herança espiritual. E não te esqueças de que das outras Ordens grande parte da documentação que melhor poderia caracterizar a sua vida puramente religiosa e a que prolongava esta, desapareceu.

– Parece-me que estás a sugerir que a História será mais favorável no futuro à Ordem de Cristo do que às restantes.

– Disso não tenho dúvida. Creio mesmo que toda a carga mitológica será associada à ordem de Cristo, por motivos legítimos e por motivos forçados, quer pelas circunstâncias quer pelas manobras políticas. E esta é uma longa história escrita por muita gente, da qual se deu conta D. João, como muitas vezes demonstrou. E se gostas de espreitar para o quarto onde se juntam as dúvidas, dou-te mais uma razão para cogitares: quando em Setúbal o Rei matou o Duque, foi o Mestre da Ordem de Santiago quem matou o Mestre da Ordem de Cristo.

– Não estás a ir longe de mais?

– Unicamente te convidei a espreitares…

– Esqueces, ou parece que esqueces, que durante séculos foi o Papa que, usando o seu poder através das bulas, exerceu a justiça e impediu que as Ordens se degladiassem e criassem atritos, ou até convulsões, nos reinos onde foi autorizada a sua acção.

-Mais uma sombra me permito colocar nas tuas cómodas certezas: a suprema hierarquia da Igreja, que a Europa respeitava, não só religiosamente como temporalmente, não conheceu sempre a solidez e a coerência que muitos hoje apregoam.

E os desvios e as oscilações que abanaram o trono pontifício, foram aproveitados pelos políticos mais perspicazes como aconteceu, e lembro-to: quando Portugal apoiou Avinhão em 1380, para no ano imediato se bandear para Roma, para logo em 1382 seguir novamente Avinhão no tempo do antipapa Clemente VII, até que, finalmente, em 1385 decidiu, depois de tudo ter sido medido e pesado, seguir o Papa Urbano. E acentuo, depois de tudo medido e pesado.

O cavaleiro, que nos estava a ouvir com impaciência, decidiu intervir com um gesto brusco e com alguma arrogância:

– Viandante, que buscas o que não podes entender: olha toda aquela cavalgada. Com ela vai a História. Com ela vão reis e nobres, com ela vão os que morreram pela sua fé, com ela vão os que levaram a cristandade ao fim dos oceanos. Que importa que uns tenham sido melhores do que outros e que muito tenha ficado por fazer? Fomos e fizemos o que Nosso Senhor determinou.

– Não o questiono. O que quero é a verdade. É a sua procura que me leva nesta viagem e, muito do que se diz sobre as Ordens é uma verdade moldada, ajustada a interesses e, como sabes, quem escreve a História poucas vezes é quem faz a História.

E as Ordens que se acolherão com a morte de D. Jorge todas ao regaço real, já pouco têm de militares e muito pouco têm de religiosas, o que, por muito que te custe, prova que a espiritualidade de que se ufanam não é tão importante como apregoam. Os poderosos, papas e reis, serviram-se delas, e quando já não lhes são de grande préstimo, deixam-nas tombar, como tantas vezes já lhes tinha acontecido e isto só seria evitado se tivessem criado vida e cultura próprias, o que nunca aconteceu. Suspeito que ainda te conduza a uma desilusão se te disser que, quando os Templários foram extintos, sem luta nem glória, nada ficou a recordar a sua existência, salvo um belo manancial de lendas e de interpretações nem sempre rigorosas que, embora fundadas na sua riquíssima herança mística, tomam por vezes a nuvem por Juno.

– Estás a ser, mais uma vez profundamente injusto e até a denunciar que sabes pouco destes assuntos.

– Justamente por reconhecer que sei pouco é que ando a calcorrear montes e vales. E por isso faço perguntas. Como as que te vou fazer de seguida: – Crês que, quando D. Diniz, avisadamente, chamou a si o poder e o património dos Templários, que conseguiu que fossem crismados de Ordem de Cristo, o fez pensando na sua espiritualidade? Acreditas que D. Henrique utilizou, durante quarenta anos, a Ordem de Cristo só pela espiritualidade que nela se respirava? Então porque motivo, quando morreu o Infante, a Ordem perdeu grande parte da sua expressão? E D. João II, ao tirar da margem para onde tinha sido atirada a Ordem de Santiago, ao estrutura-la e ao servir-se dela fê-lo também por força da sua espiritualidade? Ou, por fim, inspirado pelos ventos que continuam a soprar dos mesmos quadrantes, insistes em colocar no plinto do misticismo uma só Ordem?

– A todas essas perguntas poderia dar resposta, mas não a dou porque já sabes qual é. Julgo todavia que tenho o direito de te fazer, eu, uma só pergunta: – Não foste tu quem ao começar esta caminhada disse que iria dispensar a racionalidade? Se ainda persistes na mesma intenção deves perceber que não podes julgar o que foram, ou não foram as Ordens religiosas e militares unicamente pelo que fizeram mas pelo que significaram e, para muitos significarão durante séculos.

– Aceito, ainda que não aprecie muito o modo como vocês evitam as discussões, saltando num momento para o terreno onde os outros não são tolerados. Seja como for, e a conversa será mantida por muita gente durante muito tempo, digo-te que vos respeito mas que continuo a pensar que poderiam ter sido muito mais do que foram se, no terreno que também é o vosso, o da espiritualidade, deixassem obra mais sólida e duradoura.

– Os cavaleiros e os clérigos estão a afastar-se. Temos de nos juntar a eles. Não te esqueças do que te disse.

A.T.R.

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