{"id":4720,"date":"2019-07-02T14:17:53","date_gmt":"2019-07-02T14:17:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/?p=4720"},"modified":"2023-02-10T16:16:43","modified_gmt":"2023-02-10T16:16:43","slug":"as-cruzes-e-a-espada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/as-cruzes-e-a-espada\/","title":{"rendered":"The Crosses and the Sword"},"content":{"rendered":"<h3 style=\"text-align: justify;\">Tantos mundos se cruzam num s\u00f3 mundo,<\/h3>\r\n<h3 style=\"text-align: justify;\">numa s\u00f3 pessoa e num s\u00f3 momento\u2026<\/h3>\r\n<h4>Fug\u00edssemos n\u00f3s para o pobre cub\u00edculo das racionalidades, onde nada se produz nem se reproduz que n\u00e3o seja o julgarmos que \u00e9 nele que tudo se produz e reproduz, e viver\u00edamos num s\u00f3 mundo onde paredes de pedra fria nos impediriam de ver que \u00e9 para al\u00e9m delas que h\u00e1 mais sol e mais lua. Mas, muitos de n\u00f3s n\u00e3o nos queremos esquecer de quem somos; queremos lembrarmo-nos de que s\u00f3 com os olhos abertos para todos os lados merecemos os olhos que nos deram. E, como alguns sabemos, os olhos v\u00eaem coisas que n\u00f3s julgamos perceber e coisas que n\u00f3s julgamos n\u00e3o entender. Triste seria que as n\u00e3o quis\u00e9ssemos ver e mais triste seria ainda que s\u00f3 abr\u00edssemos os olhos para vermos o que os outros julgam ver.<\/h4>\r\n<h4>Assim cogitando, encaminhei-me por uns c\u00f3rregos, que v\u00e3o dar a outros c\u00f3rregos, sabendo que iria encontrar pessoas que vivem hoje neste mundo, pessoas que vivem hoje noutros mundos e pessoas que nunca viveram em mundo nenhum. Que eu saiba\u2026<\/h4>\r\n<h4>Acerca do percurso que segui nada perguntei aos deuses; deixei-os guiarem-me, t\u00e3o grande \u00e9 a confian\u00e7a que tenho nos deuses que criei. E ainda menos perguntei aos letrados, sabedores de certezas requentadas, donde j\u00e1 n\u00e3o brotam d\u00favidas nem suspei\u00e7\u00f5es. Fosse eu pelo caminho que me indicassem e entenderia o mesmo que eles entendem, da forma como eles entendem e o que eu quero \u00e9 entender o que eu for capaz de entender sem deixar de ser eu.<\/h4>\r\n<h4>Agora, depois de ter andado muito, estou sentado, serenamente, a meditar no que aconteceu no Pa\u00eds onde nasci no tempo em que eu nele gostaria de ter nascido. E, como j\u00e1 expliquei, n\u00e3o quero ficar prisioneiro do racional, s\u00f3 comprovadamente racional; evito as constru\u00e7\u00f5es feitas com tijolos todos iguais, cozidos no mesmo forno, \u00e0 mesma temperatura; ainda que demore mais, tentarei encontrar m\u00e1rmores e granitos, porque quero alojar com dignidade as figuras que quero convidar para os meus pensamentos.<\/h4>\r\n<h4>Vou recome\u00e7ar a caminhada por esta longa subida que me vai levar a um monte donde se pode ver muito, muito longe.<\/h4>\r\n<h4>J\u00e1 cheguei. Estou \u00e0 procura de um local para me sentar mas\u2026 eis que passa por mim um cavaleiro. De todo ele brota nobreza; das fei\u00e7\u00f5es, da express\u00e3o, do porte, do gesto, do modo como cavalga, mandando no cavalo sem o ferir com as esporas. Parou por momentos no ponto mais alto do caminho. Para olhar ao longe, t\u00e3o longe que n\u00e3o percebo o que estava a ver. S\u00f3 depois me explicar\u00e3o que todos os outros, como eu, n\u00e3o ver\u00e3o t\u00e3o longe como este cavaleiro porque os horizontes dele est\u00e3o muito mais distantes. Agora que se afasta, e s\u00f3 agora, vejo que uns passos \u00e0 frente um velho est\u00e1 sentado num tronco tombado. Encara-me e pergunta:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Sabes quem \u00e9 aquele cavaleiro?<\/h4>\r\n<h4>Porque lhe respondo que n\u00e3o, diz-me num tom quase declamado:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; \u00c9 o Infante das Sete Partidas, os menos exigentes chamam-lhe D. Pedro e alguns at\u00e9 Regente ou mesmo Duque de Coimbra. Sabes que peregrinou por todo o lado? N\u00e3o s\u00f3 pelas sete partidas. Quando algu\u00e9m contou a viagem que o Infante fez \u00e0s Terras do Preste Jo\u00e3o, alguns usaram o triste direito de duvidarem que o Infante l\u00e1 tivesse chegado. Como perceber\u00e1s, as d\u00favidas nunca chegaram ao Infante; porque ele sabe que esteve em todas as terras do Preste Jo\u00e3o e n\u00e3o ouviu sequer as d\u00favidas dos que nunca foram a Terra nenhuma, muito menos \u00e0s do Preste Jo\u00e3o. E para ti, quem \u00e9 o Infante?<\/h4>\r\n<h4>De cima dos meus magros saberes respondo que sei bem quem \u00e9 o Infante e antes que o meu interlocutor possa colocar qualquer d\u00favida, acumulo refer\u00eancias ao Infante, a seus pais, a seus irm\u00e3os, \u00e0 torpe ac\u00e7\u00e3o dos Bragan\u00e7as e dos seus c\u00famplices que se serviram do pusil\u00e2nime D. Afonso para, servindo Castela, levaram o Cisne \u00e0 morte, e\u2026paro quando pressinto que o meu arrazoado est\u00e1 a originar um vago sorriso de ironia. Melindrado, pergunto:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; O que \u00e9 que estou a dizer que n\u00e3o seja verdadeiro?<\/h4>\r\n<h4>Com um olhar distante, o velho diz-me:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Tudo isso \u00e9 verdadeiro. S\u00e3o as verdades que todos conhecem. \u00c9 bom que percebas que as verdades que todos conhecem n\u00e3o s\u00e3o as mais importantes. As mais importantes s\u00e3o as que poucos conhecem. Porque est\u00e1s interessado em percorreres o teu caminho, fazendo ouvidos de mercador ao que dizem as palavras arrumadas em s\u00f3lidas prateleiras, mas desperto para os ind\u00edcios que permitir\u00e3o escolhas mais livres de certezas, guarda o que te vou dizer.<\/h4>\r\n<h4>Este pr\u00edncipe, que tanto amamos, \u00e9 Regente de Portugal, pelos seus altos m\u00e9ritos e porque por isso se bateu, mais do que qualquer outro, o seu irm\u00e3o, o Infante D. Jo\u00e3o, que \u00e9 o mestre da Ordem Militar de Santiago. E, meu amigo, se quiseres saber quem \u00e9 esse homem que agora passou, tens de saber muito mais. Tens de sentir donde ele vem, seguindo sempre pelas pegadas que deixou e que marcaram, profundamente, a Hist\u00f3ria do Pa\u00eds onde nasceste desde que cumpriu o destino de procurar todos os Prestes Jo\u00f5es onde quer que eles se encontrem e, se mais n\u00e3o marcaram foi porque as for\u00e7as que apagam as luzes foram, por um tempo, mais fortes do que as for\u00e7as que acendem as luzes.<\/h4>\r\n<h4>\u00c9 verdade que andou por este e por outros mundos, mas \u00e9 mais importante perceber porque \u00e9 que andou pelo mundo. \u00c9 verdade que escreveu de Bruges ao rei seu irm\u00e3o. Mas \u00e9 mais importante perceber porque \u00e9 que escreveu o que escreveu a seu irm\u00e3o; porque \u00e9 que queria que em Portugal fossem criadas dez universidades. \u00c9 verdade que andou pelas cortes da Europa onde se fez respeitar e admirar, mas mais importante \u00e9 perceber porqu\u00ea. E mais importante ainda porque ficamos a compreender o homem que se bateu por que em Portugal nascesse uma sociedade mais justa, mais culta e mais moderna \u201cordenada numa doce e for\u00e7osa cadeia de benfeitorias\u201d como escreveu.<\/h4>\r\n<h4>Foi ele quem escreveu tamb\u00e9m na \u201cVirtuosa Benfeitoria\u201d: \u201c Um s\u00f3 cuidado devem ter os pr\u00edncipes, guardar em todas as suas obras o proveito dos seus s\u00fabditos e esquecer os pr\u00f3prios desejos. Outro mandado \u00e9 que, por tal maneira curem eles o corpo da comunidade que, em dando sa\u00fade a uma parte, n\u00e3o desamparem o todo. Disto se usa muito o contr\u00e1rio\u201d. Se meditares bem no significado destas palavras, ser\u00e1s tentado a compar\u00e1-las com as que ser\u00e3o escritas, daqui a um s\u00e9culo, por um italiano, um tal Nicolau Maquiavel, que ir\u00e1 tentar ensinar um pr\u00edncipe. Neste caso, \u00e9 o pr\u00f3prio pr\u00edncipe quem ensina\u2026<\/h4>\r\n<h4>Ainda, n\u00e3o h\u00e1 muito, talvez o saibas, num dia em que o Infante passava, com o seu irm\u00e3o Henrique sobre a ponte de Coimbra, este, ao olhar as armas da cidade que apresentavam uma mulher sobre um c\u00e1lice amamentando um le\u00e3o e uma serpente, comentou que o le\u00e3o era Castela e a serpente o timbre das armas de Avis, sendo Pedro a figura que alimentava Castela de um lado e Portugal do outro, ao que Pedro retorquiu: -\u201cN\u00e3o v\u00eas o c\u00e1lice, meu irm\u00e3o? O c\u00e1lice pode conter o vinho e o sangue, e porque n\u00e3o o Graal? Ou a ta\u00e7a cruel do infort\u00fanio\u2026\u201d. Quando puder falar com ele, perguntar-lhe-ei se nesse momento pressentiu que aquele seu irm\u00e3o se comportaria para consigo de forma d\u00fabia, mesmo hostil, como aconteceria em Alfarrobeira.<\/h4>\r\n<h4>Duvido que me responda, como n\u00e3o me responder\u00e1 se lhe falar na insist\u00eancia deste mesmo irm\u00e3o, que quase sozinho tudo fez para que o reino se aventurasse na t\u00e3o insensata arremetida sobre T\u00e2nger que custou, para al\u00e9m da derrota e dos mortos sofridos, a ignominiosa pris\u00e3o e posterior morte do irm\u00e3o de ambos, o pobre Fernando.<\/h4>\r\n<h4>Foi por essa altura que a meada cujo fio persegues se come\u00e7ou a mostrar mais claramente, ainda que, no que diz respeito a D. Henrique, muitas vezes o protagonismo que conquistou e o que lhe atribu\u00edram, tenha deixado na penumbra muitos epis\u00f3dios que deves estudar para que possas ter uma opini\u00e3o justa a seu respeito.<\/h4>\r\n<h4>D. Henrique adoptou como filho o segundo filho de seu irm\u00e3o, o rei D. Duarte, Fernando, deixando-lhe, por testamento, \u201c todos os seus bens, ra\u00edzes e m\u00f3veis\u201d. N\u00e3o te esque\u00e7as, para que no decorrer da tua viagem possas perceber melhor as teias que os fados montaram que D. Henrique era, tamb\u00e9m Duque de Viseu. O mesmo fez, antes do desastre de T\u00e2nger, o Infante que ser\u00e1 conhecido como Santo. Lembro-te tamb\u00e9m que esse Infante, perfilhado por D. Henrique, casaria com D. Beatriz, neta de D. Jo\u00e3o I e do primeiro Duque de Bragan\u00e7a. Come\u00e7ar\u00e1s a ver um pouco mais claro se souberes que, contra os h\u00e1bitos dominantes, D. Beatriz chegaria a Governadora da Ordem de Cristo, honra que coube entretanto n\u00e3o s\u00f3 a D. Henrique como a D. Fernando.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Que grande e complicado enredo\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Est\u00e1s muito enganado. \u00c9 o mais claro e at\u00e9 o mais cl\u00e1ssico de todos. Unicamente h\u00e1 duas linhas, exactamente como h\u00e1 dois pratos numa balan\u00e7a \u2013 igual \u00e0 que est\u00e1 representada no escudo do Infante das Sete Partidas \u2013 como h\u00e1 o justo e o injusto, como h\u00e1 o bem e o mal, como h\u00e1 o sonho e o calculismo.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Admiro o teu saber e pe\u00e7o-te que me digas para onde foi o Infante, depois de ter passado por n\u00f3s.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Ainda n\u00e3o percebeste. N\u00e3o passou. Est\u00e1 aqui. Porque em cada tempo se vivem todos os tempos. Estar\u00e1 sempre aqui porque anda por todo o mundo. Basta que o sintas.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas porque \u00e9 que um homem t\u00e3o not\u00e1vel teve um fim t\u00e3o triste?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; O fim a que te referes, n\u00e3o foi o fim. Se o tivesse sido n\u00e3o o ter\u00edamos visto passar agora e n\u00e3o estar\u00edamos a falar dele. O Infante s\u00f3 deu uns passos para o fundo do palco. De l\u00e1 v\u00ea tudo o que acontece nos tempos que s\u00e3o os das nossas vidas. Muitas vezes se emociona, se alegra, se entristece, mas poucas vezes se admira. E s\u00f3 se admira poucas vezes justamente porque \u00e9 ele um dos autores da pe\u00e7a.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas, porque aconteceu o que aconteceu depois de ele ter apontado os caminhos do futuro?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Voltamos aos pratos da balan\u00e7a. Ele \u00e9 a vontade de ser um Galaaz do sonho, da cultura e da justi\u00e7a. Tem uma espada resplandecente \u00e0 qual se juntam as dos Avranches, mas no outro prato est\u00e3o as nossas humanas depend\u00eancias, os nossos magros interesses e as nossas pobres vaidades. E, n\u00e3o fiques desiludido. Sempre assim foi, sempre assim ser\u00e1. Aceita um conselho: dever\u00e1s sempre olhar mais a luz que ele nos d\u00e1 do que a escurid\u00e3o que os outros, para desgra\u00e7a deles, t\u00eam o dever de transportar.<\/h4>\r\n<h4>Pensativo, despedi-me do velho agradecendo-lhe o desafio que me tinha feito para que eu seja capaz de ver melhor e assim saber mais. Estranhei, quando me voltei para tr\u00e1s uns metros depois, e j\u00e1 n\u00e3o o vi. Durante muito tempo andei, sempre pelo caminho que eu tinha escolhido, Sem saber onde ele me conduziria, at\u00e9 que encontrei, um pouco afastado da vereda, um homem de meia-idade que cumprimentei e afavelmente me ofereceu \u00e1gua. Estava eu a beber quando ouvi aproximar-se um ruidoso grupo que, levado por cavalos a trote, cobriu os arbustos \u00e0 nossa volta de poeira e tornou o c\u00e9u mais ba\u00e7o. Quando olhei o meu novo companheiro vi que a sua express\u00e3o tinha mudado. Estava agora sisudo e com a testa enrugada. A m\u00e3o com que segurava o ancinho agitava-se nervosamente e dos seus l\u00e1bios sa\u00edram palavras murmuradas sopradas pelo rancor:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Corja! Ainda n\u00e3o estar\u00e3o satisfeitos?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Porque os olhas assim?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o os vistes bem? No meio, aquele homem trajado com mais luxo \u00e9 o rei D. Afonso V. Fala e esbraceja pedindo a aten\u00e7\u00e3o dos outros, que fingem dar-lha. Ele \u00e9 um homem bom que julga em cada momento que est\u00e1 a cumprir todas as obriga\u00e7\u00f5es que cabem a um rei. No entanto, \u00e9 um rei que pouco manda porque \u00e9 muito influenci\u00e1vel; gosta de dar o que \u00e9 seu e o que \u00e9 da coroa. Quem de facto manda s\u00e3o aqueles todos que v\u00e3o \u00e0 sua volta. Ele pode muito mas \u00e9 capaz de pouco. O seu \u00e2nimo \u00e9 fraco e n\u00e3o consente que ele seja quem gostaria de ser. Eles, Bragan\u00e7as, a que se juntam ac\u00f3litos vindos em busca de proventos e cetins, servem-se da fraqueza do rei. Depois da morte de D. Pedro, levaram D. Afonso a perseguir muitos dos seus seguidores, incluindo familiares que, como sabes eram tamb\u00e9m familiares do pr\u00f3prio rei. Por enquanto, l\u00e1 v\u00e3o cavalgando pela estrada da inveja e do \u00f3dio e que lhes \u00e9 apontada por Castela ao servi\u00e7o de quem se colocaram na esperan\u00e7a de virem a ser compensados. Como se de Castela pudessem vir bons ventos\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas, ao que sei, ele \u00e9 um valente soldado\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; \u00c9 verdade, mas a um rei pede-se mais que seja um grande general do que seja um valente soldado. Em Toro, a desorganiza\u00e7\u00e3o da hoste que comandava conduziu-o \u00e0 derrota, que teria sido bem funesta para Portugal se em seu socorro n\u00e3o tem ocorrido o seu filho, o Pr\u00edncipe D. Jo\u00e3o, que logrou vencer o inimigo. J\u00e1 por essa \u00e9poca o pai admirava o filho e mais o admiraria nos anos seguintes. Julgo que D. Jo\u00e3o \u00e9 o homem que D. Afonso gostaria de ser. Ter\u00e1 dito j\u00e1 que, gostaria bem mais de ser governado pelo filho do que ser ele a mandar nele.<\/h4>\r\n<h4>Foi talvez em Toro que come\u00e7ou a perceber que nunca alcan\u00e7aria os horizontes para os quais sempre correu. Sentiu que o seu bra\u00e7o n\u00e3o podia com tamanha empresa. Deixa-se sempre envolver em tramas e conflitos que n\u00e3o podem ser resolvidos s\u00f3 com a espada. Procura a gl\u00f3ria em \u00c1frica conquistando pra\u00e7as-fortes umas atr\u00e1s das outras, mas \u00e9 humilhado em Fran\u00e7a por um rei tortuoso no corpo e na alma, que n\u00e3o sabe manejar uma espada mas que sabe manejar a ast\u00facia. Porque a sua vis\u00e3o da pol\u00edtica e do mundo terminam na ponta da espada, continua a bater-se pelo prosseguimento das conquistas em \u00c1frica, em zonas, que sendo o prolongamento do seu reino possam ser socorridas e apoiadas com facilidade n\u00e3o aceitando os argumentos dos que, como seu tio Henrique querem ir mais longe, muito mais longe.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Surpreende-me que assim seja, porque julgo que \u00e9 um homem culto, at\u00e9 me dizem que tem muitos bons livros e que \u00e9 o primeiro rei a ter uma livraria no pa\u00e7o.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Assim ser\u00e1 e isso mais penoso lhe tornar\u00e1 o destino porque vai crescendo o fosso entre o mundo que ele cria no seu \u00edntimo e o mundo que ele v\u00ea \u00e0 sua volta.<\/h4>\r\n<h4>Caminhar\u00e1 para dias de grande abatimento e a sua grande esperan\u00e7a ser\u00e1, at\u00e9 ao fim dos seus dias, o filho. Cedo quis confiar-lhe os neg\u00f3cios do reino. F\u00ea-lo, como te lembras, quando da mal sucedida ida a Fran\u00e7a e foi ent\u00e3o muito comentado que, apesar de todos estes que ali v\u00e3o \u00e0 sua volta afian\u00e7arem que D. Jo\u00e3o n\u00e3o lhe devolveria o trono, o pai e o filho deram-lhes uma bela li\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 porque a devolu\u00e7\u00e3o se realizou, como porque foi feita com o maior respeito e at\u00e9 carinho.<\/h4>\r\n<h4>E, para que possas julgar melhor este homem que j\u00e1 divisamos com dificuldade e que iniciou o reinado com a morte de um dos mais luminosos pr\u00edncipes de Portugal, digo-te que, e a respeito da aventura mar\u00edtima dos portugueses que, por ele ter reconhecido que n\u00e3o tem alma para olhar os caminhos dos mares desconhecidos, quase abandonados desde que D. Henrique morreu, em 1460, a imensa tarefa \u00e9 entregue a D. Jo\u00e3o tendo-lhe atribu\u00eddo, h\u00e1 pouco, as rendas da Guin\u00e9 e de tudo o que j\u00e1 foi descoberto para que as passe a administrar.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Queres-me dizer que os portugueses se ir\u00e3o lembrar deste rei como de um homem que, apesar da sua inseguran\u00e7a, tenta ser \u00fatil ao seu povo, carregando sempre com a tristeza de n\u00e3o ter atingido as grandes ambi\u00e7\u00f5es que o acompanham desde a juventude?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Lembrar-se-\u00e3o do rei que, sem muitas vezes o pretender, teve uma m\u00e3o na reg\u00eancia de D. Pedro e outra no reinado de D. Jo\u00e3o II. A educa\u00e7\u00e3o que recebeu e as funestas influ\u00eancias que sobre ele se abateram, impedem-no de ser o rei que abre os largos port\u00f5es da modernidade, mas tenho para mim que alguns dos m\u00e9ritos do seu sucessor foram por ele semeados. S\u00f3 por isso, que \u00e9 muito, merece o respeito dos povos deste reino.<\/h4>\r\n<h4>Separei-me do homem que, com o ancinho prosseguiu na sua tarefa de limpar o terreno de silvas e tojos e fiz-me ao caminho. O tempo prometia tempestade; o vento, soprado de muitos lados fazia rodopiar folhas, ramos e poeiras. Num instante, a trovoada estalou, com rel\u00e2mpagos a desenharem amea\u00e7as e luta nos c\u00e9us que, imp\u00e1vidos, assistiam da sua eternidade. Tentei esconder num abrigo qualquer a minha humana pequenez. Procurei, procurei, mas n\u00e3o encontrei um s\u00edtio onde me pudesse acolher. Todas as minhas roupas estavam cheias de \u00e1gua e, com o corpo enregelado, senti medo. Muito medo. Quem me poderia valer naquele ermo onde todas as for\u00e7as da natureza se tinham virado contra mim? Estava j\u00e1 em desespero quando a tempestade, subitamente abrandou. Em curtos momentos, o vento parou, a trovoada calou-se, as nuvens afastaram-se e o sol l\u00e1 muito em cima iluminou todo o cen\u00e1rio. Os meus medos fugiram e surpreendi-me ao ouvir pela estrada acima os passos de um cavalo. De um s\u00f3 cavalo, montado por um homem com express\u00e3o severa mas tranquila que me faz lembrar por um momento o Infante das Sete Partidas ainda que o rosto e o corpo sejam bem diferentes.<\/h4>\r\n<h4>Ao passar junto a mim, com um gesto nobre mas af\u00e1vel saudou-me. Admirado, cumprimentei-o com o respeito que a sua figura impunha. Depois, fui para o meio da estrada vendo-o afastar-se e, com tanta aten\u00e7\u00e3o o olhava que n\u00e3o senti que um homem novo, sa\u00eddo n\u00e3o sei donde, chegara muito perto de mim. Disse-me:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o te esquecer\u00e1s deste dia. Tiveste a honra de seres saudado por el-rei D. Jo\u00e3o II.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Como sabes? Perguntei, sem querer acreditar.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o viste como a pr\u00f3pria natureza o tratou respeitosamente? E n\u00e3o sabes tu que s\u00f3 a natureza sabe tudo?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas como \u00e9 poss\u00edvel que um rei como ele v\u00e1 sozinho por uma estrada t\u00e3o cheia de perigos?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Por que \u00e9 D. Jo\u00e3o II. Ao longo do caminho, dos dois lados est\u00e3o escondidos malfeitores de todos os tipos. Alguns com aspecto medonho, outros com as armas dos cavaleiros, outros com as luxuosas vestes com que cirandam na corte e at\u00e9, para triste surpresa tua, com imponentes vestes sacerdotais.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; E perante tamanhas amea\u00e7as ele vai s\u00f3?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o. Confia na sua ast\u00facia e na for\u00e7a do seu querer. E, para que o comeces a perceber, sempre te digo que, se os seus inimigos, que s\u00e3o tamb\u00e9m os inimigos do reino, vigiam todos os seus passos, tamb\u00e9m eles s\u00e3o vigiados pelos homens do rei. E assim ser\u00e1 at\u00e9 ao \u00faltimo dos seus dias, quando, finalmente, os assaltantes abaterem o pelicano e, com ele fecharem o sonho num cofre que nunca mais ser\u00e1 aberto.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Sei quem foi D. Jo\u00e3o II. Mas o que sei \u00e9 um conjunto de conhecimentos ins\u00edpidos, incolores e sem som que foram filtrados pelos que pensam muito racionalmente com os p\u00e9s presos na terra e que n\u00e3o t\u00eam coragem de olhar por cima dos muros.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; E que devem ser respeitados quando agem honestamente. Mas creio que tens raz\u00e3o. Que devemos, se quisermos entender D. Jo\u00e3o II, ir ao seu encontro, para o que temos de nos libertar de amarras e de voar acima das nuvens.<\/h4>\r\n<h4>Para darmos um primeiro passo no mundo onde vive e que \u00e9 seu, poderemos come\u00e7ar pela esmeralda partida, mas, porque a tua jornada \u00e9 comprida, andemos mais depressa e talvez seja melhor aproximarmo-nos para que possamos ouvir alguma conversa entre D. Jo\u00e3o ainda crian\u00e7a e sua tia Filipa, filha de D. Pedro. A lenta reabilita\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria deste, av\u00f4 de D. Jo\u00e3o, \u00e9 aproveitada por Filipa &#8211; tamb\u00e9m de Lencastre \u2013 para enaltecer junto do jovem pr\u00edncipe o vulto de seu pai, ao mesmo tempo que com natural acrim\u00f3nia, aponta com dedo implac\u00e1vel os respons\u00e1veis pela morte do cisne, precavendo o pr\u00edncipe para o que tais indiv\u00edduos representam e para os perigos que no futuro o poder\u00e3o fazer correr. Outras figuras da corte que s\u00f3 por receio n\u00e3o mostram maior apre\u00e7o por D. Pedro v\u00e3o levando a verdade a D. Jo\u00e3o, a verdade que hoje lhe \u00e9 t\u00e3o \u00fatil.<\/h4>\r\n<h4>Ainda era adolescente e j\u00e1 o rei seu pai o ouvia com respeito, tendo tomado v\u00e1rias decis\u00f5es por ele pressionado e contra o parecer dos que at\u00e9 a\u00ed dele se tinham utilizado. A chegada \u00e0 cena de D. Jo\u00e3o permitiu a D. Afonso, que tanto precisava de bord\u00f5es, substituir a influ\u00eancia dos nobres de quem crescentemente desconfiava pela influ\u00eancia do filho onde encontrava firmeza e seguran\u00e7a. Foi assim j\u00e1 quando da ida a Arzila como foi quando da tomada de decis\u00f5es pol\u00edticas com as Cortes reunidas.<\/h4>\r\n<h4>Mas se, em especial nos seus primeiros anos, D.Jo\u00e3o olhou o pai com admira\u00e7\u00e3o, porque via nele um grande guerreiro, cedo percebeu que tinha de fazer uma op\u00e7\u00e3o clara entre dois modelos. Um representado por seu tio-av\u00f4, Henrique e outro por seu tio-av\u00f4 Pedro. Regista, e o futuro te poder\u00e1 insinuar coincid\u00eancias, que um era o Duque de Viseu e o outro o Duque de Coimbra. A escolha que fez foi clara: \u00e0 sua divisa, \u201c pela sua lei e pela sua grei\u201d, juntou o pelicano, que ferindo o peito, garantiu o sustento dos filhos. Espero que te recordes da frase de D. Pedro que h\u00e1 pouco te foi lida.<\/h4>\r\n<h4>D. Jo\u00e3o herdou o trono e pouco poder, os seus inimigos, n\u00e3o t\u00eam o trono mas t\u00eam muito poder. E a luta, mortal, \u00e9 entre o rei que quer mais poder e os seus inimigos que querem o trono, desejo que t\u00eam desde o s\u00e9culo passado. Ao rei n\u00e3o bastam as estradas, ele est\u00e1 a construir um reino para o futuro, o que o pr\u00f3prio seu av\u00f4 Duarte j\u00e1 tentou com a sua Lei Mental, a qual encarou a frontal oposi\u00e7\u00e3o dos descendentes de D. Nuno \u00c1lvares Pereira. S\u00f3 assim Portugal se libertar\u00e1 dos senhores feudais. E o povo est\u00e1 com o rei a quem chamar\u00e1 um dia o Pr\u00edncipe Perfeito. Desde o primeiro dia, e n\u00e3o esquece que, quando seu pai precisou da sua ajuda na campanha que culminou em Toro, D. Jo\u00e3o, sem dinheiro para custear as despesas com o ex\u00e9rcito, foi busc\u00e1-lo onde ele se encontrava sem pedir licen\u00e7a a ningu\u00e9m, \u00e0s rendas, a alguns empr\u00e9stimos, \u00e0 prata das igrejas e dos mosteiros, mas n\u00e3o pediu nem deixou que tirassem uma moeda que fosse ao povo.<\/h4>\r\n<h4>Porque que os ares de Tomar n\u00e3o lhe pareciam favor\u00e1veis, e respeitando a ac\u00e7\u00e3o empreendida por D. Henrique, pegou na luz que este a\u00ed tinha acendido e levou-a para Palmela. N\u00e3o te esque\u00e7as de que estamos a falar de um homem de grande intelig\u00eancia e n\u00e3o menor arg\u00facia. Anos antes de subir definitivamente ao trono e na \u00e9poca em que o pai andava por Fran\u00e7a em devaneios pol\u00edticos, j\u00e1 D. Jo\u00e3o estruturava a Ordem de Santiago, muito provavelmente j\u00e1 a olhar o futuro. Ordem que ficar\u00e1 nas suas m\u00e3os ou nas dos seus filhos durante muitos, muitos anos. N\u00e3o deves esquecer que a Ordem de Santiago era, at\u00e9 ao momento em que o infante D. Henrique passou a governar a Ordem de Cristo a mais poderosa Ordem do nosso reino. Por imposi\u00e7\u00e3o de quem quer moldar a Hist\u00f3ria, somos levados a esquecer que foi a Ordem de Santiago que conquistou a maior parcela do sul do que \u00e9 hoje o nosso reino. Como recordar\u00e1s que em seguida \u00e0 morte do Infante a Ordem de Cristo perdeu grande parte da sua import\u00e2ncia. Ora D. Jo\u00e3o associa Tomar \u00e0s sombras que t\u00eam vindo do Norte, do Leste e de Castela e que transportam mortes e ins\u00eddias e pareceu-lhe mais avisado escorar a pol\u00edtica em que congeminava em terreno mais seguro, enquanto os seus inimigos tacteiam mapas que nem sempre entendem.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; T\u00e3o grande tem sido a import\u00e2ncia das Ordens Militares\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Algu\u00e9m te falar\u00e1 delas mais adiante. Mas sempre te adianto que as Ordens foram muito \u00fateis mas atravessaram fases de grande apagamento. E um epis\u00f3dio ocorreu que merece reflex\u00e3o: ia D. Jo\u00e3o nos seus dezassete anos quando nas cortes de Coimbra lhe pediram para chamar a si a condu\u00e7\u00e3o da vida de todas as Ordens, que atravessavam um per\u00edodo de apagamento e at\u00e9 de desorganiza\u00e7\u00e3o, o que, se denota que j\u00e1 ent\u00e3o eram reconhecidas as qualidades do pr\u00edncipe, tamb\u00e9m mostra como as Ordens n\u00e3o tinham o poder que queriam ostentar. Sugiro-te que registes que, tendo assumido o mestrado da Ordem de Santiago em 1472, logo em1474, apoiando-se justamente nos espat\u00e1rios, chamou a si a pol\u00edtica atl\u00e2ntica. Cedo percebeu, como D. Henrique j\u00e1 tinha percebido, que, para que Portugal permanecesse independente, eram necess\u00e1rios mares, terras e ouro. Mas, continuemos. N\u00e3o com a descri\u00e7\u00e3o dos muitos epis\u00f3dios de que tu, como os outros portugueses, tendes conhecimento, mas de algumas situa\u00e7\u00f5es que permitem perceber melhor que homem \u00e9 este rei.<\/h4>\r\n<h4>Ao longo de toda a sua vida, que, s\u00f3 durou quatro d\u00e9cadas, e para al\u00e9m de algumas que viveram escondidas atr\u00e1s dos reposteiros ou na sombra de grandes senhores, v\u00e1rias personagens estiveram sempre presentes. Se uma dessas personagens \u00e9 a rainha com quem o casaram na esperan\u00e7a de que o casamento uniria o que as ambi\u00e7\u00f5es e as invejas teimavam em desunir e que, em especial nos \u00faltimos anos da vida do rei, mostra bem de que lado est\u00e1, outra personagem que sempre est\u00e1 presente, mesmo quando se encontra longe, como agora, \u00e9 D. Jorge da Costa. Ainda que seja referido com frequ\u00eancia, quero lembrar-te que este homem, que come\u00e7ou por ser conhecido pelo Jorge Martins-da-Enxerga, foi mestre de D. Catarina, irm\u00e3 de D. Afonso V, fez, a pedido da Rainha D. Leonor o Regimento do Hospital das Caldas da Rainha, foi Bispo de \u00c9vora e Arcebispo de Lisboa e, porque tivesse sentido que os ventos n\u00e3o lhe corriam de fei\u00e7\u00e3o ou porque \u00e9 muito ambicioso, inventou um pretexto para se fixar na corte do Vaticano onde, ao que dizem, s\u00f3 n\u00e3o foi ainda Papa porque n\u00e3o quer. Talvez tenha contribu\u00eddo para essa mudan\u00e7a de poiso o facto do ainda jovem D. Jo\u00e3o ter amea\u00e7ado num certo dia mandar atir\u00e1-lo ao rio. Soubesse ent\u00e3o o rei o que sabe hoje\u2026 O certo \u00e9 que, embora tecendo, diplomaticamente, algumas loas ao rei, sempre foi um util\u00edssimo servidor dos inimigos deste, tendo intrigado muito contra a pretendida legitima\u00e7\u00e3o de D. Jorge, filho de D. Jo\u00e3o e de D. Ana de Mendon\u00e7a. Se pode ser defendida a sua interven\u00e7\u00e3o em favor dos interesses dos Reis Cat\u00f3licos porque julgaria que assim servia melhor a universalidade da Igreja, n\u00e3o merece sen\u00e3o o mais fundo rep\u00fadio a carta que, dizem, escreveu e mandou ao rei. Tal carta, que mostra bem a massa de que \u00e9 feito o Cardeal foi dirigida a D. Jo\u00e3o no momento mais triste da vida deste, quando da morte do seu filho Afonso.<\/h4>\r\n<h4>D. Jorge da Costa, adejando as asas do \u00f3dio que t\u00e3o mal escondia, com inaudita crueldade, que s\u00f3 podia ser exibida por quem estava a quatrocentas l\u00e9guas do rei e se encontrava sob a protec\u00e7\u00e3o papal, acusava o rei de \u201cesquecer a sua alma e a sua salva\u00e7\u00e3o ao lamentar um peda\u00e7o de carne que de v\u00f3s se apartou e que \u00e9 mais propriamente um pouco de esterco e podrid\u00e3o\u201d.<\/h4>\r\n<h4>Muitos outros homens se bateram, com maior dignidade uns do que outros contra D. Jo\u00e3o, mas pergunto-te: alguma vez pensaste em que D. Jo\u00e3o se tem havido com maior facilidade com os homens do que com as mulheres?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Nunca em tal pensei. Mas a que mulheres te referes?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; A tr\u00eas, embora bem diferentes umas das outras. A primeira, por ser a mais velha, \u00e9 D. Beatriz, sua sogra e portanto m\u00e3e n\u00e3o s\u00f3 de D. Leonor, como dos sentenciados Duques de Bragan\u00e7a e de Viseu a qual, como te lembrar\u00e1s, foi governadora da Ordem de Cristo, ela que enviuvou de D. Fernando, filho adoptivo do Infante D. Henrique. As malhas que teceu com a corte de Castela, sempre tendo na mira os interesses dos seus familiares Bragan\u00e7as e dos apaniguados destes, foram secundados de forma cada vez mais evidente por sua filha Leonor, a segunda mulher com quem D. Jo\u00e3o se defronta, que tem sofrido fortes agravos de seu marido e que \u00e9 mais sugestion\u00e1vel do que D. Beatriz. O \u00faltimo grande sonho do rei, pelo qual se bateu at\u00e9 ao fim, a legitima\u00e7\u00e3o de D. Jorge, contar\u00e1 at\u00e9 ao fim com a tenaz oposi\u00e7\u00e3o de ambas, que apoiam muito empenhadamente a causa de D. Manuel, filho de uma e irm\u00e3o de outra.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; O povo n\u00e3o aprecia muito D. Leonor. Muitos s\u00e3o os que a associam \u00e0s disputas internas e \u00e0s pretens\u00f5es dos castelhanos\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Como n\u00e3o s\u00e3o menos os que murmuram que a cria\u00e7\u00e3o das Miseric\u00f3rdias lhe \u00e9 atribu\u00edda justamente para que seja mais estimada, quando \u00e9 certo que ter\u00e1 sido o trinit\u00e1rio frei Miguel Contreiras o primeiro a propor t\u00e3o bela medida e que at\u00e9 D. Jorge da Costa esteve implicado na cria\u00e7\u00e3o da Miseric\u00f3rdia de Lisboa. Maior reconhecimento mereceu o rei, que criou o Hospital de Todos-os-Santos, no Rossio de Lisboa, cujas obras tem ido ver todos os dias.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas tens de aceitar que a rainha tem uma vida muito dif\u00edcil. Desde o seu casamento com o ent\u00e3o futuro rei que est\u00e1 no meio de uma procela que n\u00e3o domina porque os elementos s\u00e3o muito mais poderosos do que ela; n\u00e3o podemos esquecer que lhe foi confiada uma miss\u00e3o muito acima das suas capacidades e, de que tem assistido \u00e0 morte de irm\u00e3os e do filho e \u00e0 afronta de ver o fruto da rela\u00e7\u00e3o que seu marido teve com Ana de Mendon\u00e7a a ser levado pelo seu marido at\u00e9 ao trono que deveria ser do filho de ambos.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Ter\u00e1s alguma raz\u00e3o, mas deves aceitar que se a rainha for at\u00e9 ao fim da vida do rei mais sua esposa do que membro da sua fam\u00edlia de origem a hist\u00f3ria de Portugal ser\u00e1 bem diferente da que se prenuncia\u2026 Creio que n\u00e3o te estar\u00e1s a lembrar da maior inimiga do rei; e que \u00e9, de entre todos os que se incorporaram nas tremendas for\u00e7as que o combateram, o seu mais poderoso advers\u00e1rio.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Est\u00e1s a apontar o dedo \u00e0 rainha Isabel, a Cat\u00f3lica.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Evidentemente. Neste tabuleiro onde se jogam destinos de na\u00e7\u00f5es e de homens, muitos s\u00e3o os pe\u00f5es e muitos outros os que mostram talentos e capacidades, mas a vit\u00f3ria, apesar de, desde o in\u00edcio da contenda estar escrita, j\u00e1 que D. Jo\u00e3o est\u00e1 quase sozinho no seu campo, s\u00f3 tombar\u00e1 para o lado advers\u00e1rio porque este conta com uma mulher que, pela sagacidade e firmeza \u00e9 uma muito forte contendora. Acrescento que D. Isabel e D. Jo\u00e3o, apesar de serem inimigos se respeitam, justamente porque cada um reconhece a estatura do outro.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o \u00e9 a altura, porque vais de caminhada e te importa mais ver o caminho todo, para assim perceberes melhor donde vem e para onde vai, do que valorizares cada obst\u00e1culo ou cada curva que surge, determo-nos sobre os pormenores vividos pelo homem que passou por n\u00f3s nesta estrada de que n\u00e3o nos deixam conhecer o fim, mas, ainda te quero pedir mais uns momentos para que melhor o fiques a conhecer.<\/h4>\r\n<h4>Ainda n\u00e3o tinha ascendido ao trono, no per\u00edodo em que o seu pai andou em divaga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas por Fran\u00e7a e j\u00e1 ele mostrava as suas aptid\u00f5es pol\u00edticas nas conversa\u00e7\u00f5es que desembocaram nas Tercerias de Moura e nas quais foi estabelecida uma bem urdida malha que salvaguardava os interesses do reino e do seu futuro. Se todos admiram a forma habil\u00edssima como esgrimiu, rodeado de inimigos quando das discuss\u00f5es que culminaram em Tordesilhas, sabendo guardar as armas do falc\u00e3o e s\u00f3 utilizando as da coruja, com intelig\u00eancia e com discri\u00e7\u00e3o, as mesmas que, durante s\u00e9culos, impediram que fosse desvendada a nacionalidade de Colombo, descobridor que pouco descobriu, poucos s\u00e3o os que se interessam em saber o que aconteceu entre o dia em que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo e o dia em que Vasco da Gama chegou a Calecute. No entanto, o que de muito importante ent\u00e3o ocorreu e que teve funda repercuss\u00e3o nos acontecimentos futuros, nasceu do g\u00e9nio daquele homem, daquele homem s\u00f3, que apesar de cavalgar t\u00e3o direito na sela, leva sobre os ombros toda a esfera armilar.<\/h4>\r\n<h4>S\u00f3 os n\u00e9scios, ou os que foram empurrados para outras certezas, \u00e9 que poder\u00e3o esquecer que a celebrada viagem de Vasco da Gama, cavaleiro da Ordem de Santiago, s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel porque ele pr\u00f3prio j\u00e1 fez outras viagens a mando de D. Jo\u00e3o II.<\/h4>\r\n<h4>S\u00f3 a bem montada pol\u00edtica de encobrimento, quer do rei quer depois a que os seus inimigos far\u00e3o relativamente \u00e0 sua obra, ser\u00e1 capaz de esconder que o seu filho, D. Jorge, na qualidade de Mestre da Ordem de Santiago, atribuir\u00e1, em 1495, logo a seguir \u00e0 morte do pai, duas comendas a Vasco da Gama, \u201c pelos muitos servi\u00e7os que tinha prestado a seu pai e pelos servi\u00e7os que, espero, adiante far\u00e1\u201d. Que servi\u00e7os? Quem quiser descobri-los n\u00e3o tem mais do que recordar os muitos quintais de bolacha que t\u00eam sido fornecidos \u00e0s frotas que, sem registo dos nomes dos comandantes nem das rotas determinadas, v\u00e3o oceano dentro, justamente nos anos que antecedem a grande viagem de Vasco da Gama. Pensa tamb\u00e9m em como seria imprudente confiar a maior responsabilidade pela realiza\u00e7\u00e3o desta viagem a um inexperiente e quase desconhecido comandante.<\/h4>\r\n<h4>Da mesma forma deves olhar para a viagem de Pedro \u00c1lvares Cabral, tamb\u00e9m ele cavaleiro da Ordem de Santiago, que descobrir\u00e1 o que j\u00e1 est\u00e1 descoberto desde h\u00e1 anos. E assim melhor entendes porque eu disse h\u00e1 pouco que h\u00e1 duas pol\u00edticas de secretismo: a do rei e a dos seus inimigos. Se o rei quer sempre defender os interesses da coroa portuguesa, o vasto conc\u00edlio dos seus inimigos poder\u00e1, ao n\u00e3o permitir que sejam atribu\u00eddos o m\u00e9rito e a honra de todos estes gloriosos sucessos a D. Jo\u00e3o, coloc\u00e1-los, com falsidade, nos bra\u00e7os do seu sucessor, membro e principal benefici\u00e1rio da ac\u00e7\u00e3o do conc\u00edlio. E ficar\u00e1 claro, para todos e para sempre, que D. Jo\u00e3o foi o rochedo que impediu durante largo tempo que a torrente imensa, criada pelas causas de Madrid e pelos pretextos do Vaticano, que tudo quer levar \u00e0 frente, tome o Mundo e destrua Portugal. De muitas armas se serve e, porque as utiliza com arg\u00facia e discri\u00e7\u00e3o, suspeito que durante muitos anos a sua luta n\u00e3o ser\u00e1 percebida em todas as frentes em que peleja.<\/h4>\r\n<h4>Acrescento, para que possas cogitar mais um pouco: Daqui a uns anos, creio que em 1507, Vasco da Gama, j\u00e1 ent\u00e3o elevado \u00e0 nobreza, ser\u00e1, como a sua fam\u00edlia, por determina\u00e7\u00e3o de D. Manuel, assente em proposta de D. Jorge, Mestre da Ordem de Santiago, expulso de Sines, terra desta Ordem e cujo senhorio lhe ser\u00e1 concedido entretanto. Passar\u00e1 ent\u00e3o, e s\u00f3 ent\u00e3o, a integrar-se na Ordem de \u2026Cristo., sendo-lhe retiradas as comendas atribu\u00eddas pela Ordem de Santiago.<\/h4>\r\n<h4>Meu amigo: as palavras que acompanham a muito significativa atribui\u00e7\u00e3o das comendas a Vasco da Gama, que ser\u00e3o escritas muito pouco depois da morte do rei, em Dezembro de 1495, soar-me-\u00e3o sempre como se forem proferidas de um alto promont\u00f3rio por um homem que assim dir\u00e1, para a eternidade, pela \u00fanica boca que o poder\u00e1 fazer, a do seu filho, que tudo foi pensado, que tudo est\u00e1 pronto, que as caravelas de Portugal poder\u00e3o ir para al\u00e9m de todas as Taprobanas e que ele, o Pr\u00edncipe Perfeito, pode sair de cena para, de longe e do alto, a poder contemplar.<\/h4>\r\n<h4>Tudo o que era humano e tudo o que era terreno dominou com a mente e com o bra\u00e7o. S\u00f3 contra os astros nada podia fazer. Eram estes que o guiavam e depois de, atrav\u00e9s dos deuses, o terem ajudado a afastar os med\u00edocres que lhe saltaram ao caminho, come\u00e7aram a ser-lhe funestos, quando pareceram aliar-se aos seus inimigos. Alijou bem duques e marqueses, iludiu ciladas e venenos, mas quando lhe retiraram o filho Afonso, quando a sua mulher enfileirou mais despudoradamente nas hostes que queriam a sua destrui\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o do reino, manobrando com o Papa, com altos dignit\u00e1rios da Igreja, com os Reis Cat\u00f3licos, com os nobres que o eram de t\u00edtulo mas n\u00e3o de alma e com tantos outros que nada eram e queriam as migalhas que cairiam do trono, juntou as for\u00e7as que ainda tinha e, com as m\u00e3os agarradas ao leme, levou o seu filho Jorge at\u00e9 junto do trono, onde j\u00e1 n\u00e3o lhe foi poss\u00edvel ergu\u00ea-lo. S\u00f3 ent\u00e3o o corpo cedeu; a alma n\u00e3o cedeu, nem ceder\u00e1 nunca. Creio que \u00e9 por isso que tantos acreditar\u00e3o que dever\u00e1 ser canonizado. Como se ele precisasse de tal reconhecimento\u2026<\/h4>\r\n<h4>Fiquei ainda durante largo tempo, sentado debaixo de uma \u00e1rvore de grande copa, a meditar em tudo o que tinha ouvido. Ocorreu-me at\u00e9 que, aquilo a que chamamos destino por n\u00e3o lhe sabermos dar outro nome, segue por estranhos caminhos. N\u00e3o percebo porque raz\u00e3o esse tal destino fez com que o nosso rei mude desta para outra vida na casa do homem que tempos depois ser\u00e1 o sogro de Vasco da Gama\u2026<\/h4>\r\n<h4>Sentia-me enriquecido mas n\u00e3o podia esquecer que a vida, os homens e outras fontes que ainda n\u00e3o identifiquei, me t\u00eam ensinado que os rios, sejam serenos ou caudalosos, n\u00e3o podem parar e que levam as correntes a conhecerem margens que tanto podem ser alcantiladas como baixas e arenosas. Foi com o c\u00e9u parado e cinzento que me decidi a continuar a minha viagem em busca dos outros e de mim.<\/h4>\r\n<h4>Andei muitas l\u00e9guas sem ver ningu\u00e9m. S\u00f3 no fundo de um vale me apercebi de um vulto que, parado, com o rosto sem express\u00e3o, me esperava. Perguntei-lhe quem \u00e9. Com voz neutra, respondeu-me:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Sou um cl\u00e9rigo da Ordem de Santiago.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; E porque me esperas?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Para que possas perceber melhor o grupo que se aproxima e para que possas perceber o significado da a presen\u00e7a de todos os que ali v\u00eam.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Que grupo t\u00e3o estranho\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; T\u00e3o estranho que parece o elenco de uma das trag\u00e9dias com que os gregos enriqueceram os homens. E, se reparares bem, cada um dos actores representa-se a si mesmo. Mas nem por isso deixam de ser personagens de uma grande e bel\u00edssima trag\u00e9dia.<\/h4>\r\n<h4>Olha com aten\u00e7\u00e3o, para que nunca mais te possas esquecer deste grupo. No meio, vem naquele belo cavalo, um homem triste. \u00c9 D. Jorge, filho de D. Jo\u00e3o II; \u00e9 Duque de Coimbra, mestre da Ordem de Santiago e mestre da Ordem de Avis. Junto dele, vai D. Pedro, o Infante das Sete Partidas, que j\u00e1 conheces e que \u00e9 seu bisav\u00f4, de quem D. Jorge herdar\u00e1 mais do que de seu pai, embora tal se venha a verificar por interven\u00e7\u00e3o deste. Do outro lado do Duque, com os olhos nele cravados, segue sua tia Joana, que ser\u00e1 celebrada como Santa Joana a Princesa e que, como saber\u00e1s, foi jurada sucessora da coroa antes do nascimento de D. Jo\u00e3o. Foi ela quem criou D. Jorge, desde os primeiros meses de vida at\u00e9 aos dez anos de idade no convento, em Aveiro quando se finou com trinta e seis anos, talvez levada como tantos e tantas outras, pela pe\u00e7onha.<\/h4>\r\n<h4>Atr\u00e1s, irrequieto como ser\u00e1 toda a vida, vai o mo\u00e7o de c\u00e2mara de D. Jorge. Chama-se Fern\u00e3o Mendes Pinto e j\u00e1 est\u00e1 a pensar em ir pelos mares fora correr todos os riscos, beber pela ta\u00e7a maior e cantar em alta grita e com largos gestos a todos os que o quiserem ouvir, e mesmo aos que o n\u00e3o quiserem ouvir, as aventuras que vai correr, e outras que, se n\u00e3o correr, poder\u00e1 vir a correr. Aquele rosto n\u00e3o engana, tem pressa de viver a vida; pouco tempo o segurar\u00e1 em Palmela e, quando voltar a casa, no Pragal, muitos s\u00e9culos de vida depois, s\u00f3 lamentar\u00e1 n\u00e3o ter corrido mais perigos e n\u00e3o ter cavalgado mais mares. Ir\u00e1 escrever um belo livro, com cheiro a maresia portuguesa, de que alguns n\u00e3o gostar\u00e3o mas no qual todos gostariam de ser figuras principais.<\/h4>\r\n<h4>E, ainda mais atr\u00e1s, vem uma mulher de meia-idade, ainda bela, muito discreta, que, montada numa mula, n\u00e3o perde, por um momento que seja, de vista o seu filho Jorge. \u00c9 D. Ana de Mendon\u00e7a, que o rei Jo\u00e3o muito amou e que vai agora viver para o convento de Santos-o-Novo, da Ordem de Santiago. Curiosamente, o convento que este substitui, o convento de Santos-o-Velho, fica situado tamb\u00e9m sobre o rio, do lado oposto de Lisboa, a ocidente da cidade e foi no local onde foi constru\u00eddo que a Ordem de Santiago, por volta de 1172, se instalou pouco depois de ter chegado a Portugal. H\u00e1 noticia de que a Ordem h\u00e1 muito ali criou um convento para mulheres, o que n\u00e3o \u00e9 vulgar em Ordens Militares. D. Jorge, que sempre tem sido um bom filho, atribuiu-lhe as rendas do reguengo e lugar de S. Gi\u00e3o, junto a Palmela, propriedade da Ordem.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Que actores para uma bela trag\u00e9dia\u2026Tens raz\u00e3o.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Que \u00e9 vivida por D. Jorge, com grande dignidade, num castelo que me lembra, muito, um outro que fica bem distante, o de Elsinor.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Compreendo a que aludes. Nesse outro castelo tamb\u00e9m viveu um pr\u00edncipe a quem assassinaram o pai. Mas D. Jorge viver\u00e1 no castelo de Palmela at\u00e9 ao fim dos seus dias e n\u00e3o o atacar\u00e3o nem tentar\u00e3o assassin\u00e1-lo como fizeram com tantos dos seus ascendentes\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Bem pior far\u00e3o. Porque, mais cruelmente, nem sequer o deixar\u00e3o viver.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; A sua vida ser\u00e1 assim t\u00e3o triste?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o duvides. Depois de ter vivido com sua tia em Aveiro, foi recebido na corte com alguns sorrisos e muitos \u00f3dios. Tudo parecia, para alegria de seu pai, anunciar um futuro tranquilo quando D. Afonso, seu irm\u00e3o, morreu. A presen\u00e7a do bastardo e, mais do que esta, a sua simples exist\u00eancia, fizeram esconder os sorrisos, porque de pe\u00e3o sem import\u00e2ncia se tornou numa figura central nas lutas pelo poder. Os inimigos de seu pai, acoitados no reino e fora dele, sentiram um novo \u00e2nimo, porque, n\u00e3o conseguindo vencer D. Jo\u00e3o estavam a posicionar-se, sem grandes esperan\u00e7as, para viverem no reinado de seu filho D. Afonso que, admitiriam, prosseguiria a pol\u00edtica que tanto hostilizavam. Agora, tinha chegado a hora de tentarem todos os esfor\u00e7os. Era o momento \u00fanico em que poderiam, rodando o leme, fazer o barco retomar a rota antiga, tradicional e feudal onde muito podiam e pouco deviam.<\/h4>\r\n<h4>Contando um a um os que se encontravam do seu lado, ainda que por motivos diferentes, e na convic\u00e7\u00e3o de que existia legitimidade formal na pretens\u00e3o, voltaram todos \u00e0 carga levando i\u00e7ado o pend\u00e3o do apagado e resguardado Duque de Beja, cedo nomeado Governador da Ordem de Cristo, que assim era arvorado em candidato \u00e0 sucess\u00e3o de D. Jo\u00e3o. Para que este decisivo esfor\u00e7o fosse coroado de \u00eaxito era necess\u00e1rio afastar D. Jorge das proximidades do trono, isto \u00e9, que o Papa n\u00e3o concedesse a sua legitima\u00e7\u00e3o. D. Jo\u00e3o tudo tentou para se opor, uma vez mais aos des\u00edgnios dos seus advers\u00e1rios. Num primeiro lance, logrou que o Papa, ent\u00e3o Inoc\u00eancio VIII, satisfizesse os seus desejos relativamente \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o de D. Jorge como Mestre das Ordens de Santiago e de Avis, t\u00edtulos que tinham pertencido a D. Afonso. Julgou-se ent\u00e3o, atrav\u00e9s das informa\u00e7\u00f5es que os eficientes agentes do rei recolheram, que o Papa tinha mostrado estar aberto \u00e0 principal pretens\u00e3o que ansiosamente D. Jo\u00e3o lhe dirigira. Todavia, porque os ventos soprados pelos deuses tivessem mudado de direc\u00e7\u00e3o, este Papa pouco mais tempo de vida teve. Foi substitu\u00eddo no trono por Alexandre VI, pont\u00edfice de que a Igreja muito se envergonha. De origem espanhola, da zona de Val\u00eancia, \u00e9 pai de muitos filhos, alguns dos quais bem conhecidos, como C\u00e9sar B\u00f3rgia e Lucr\u00e9cia B\u00f3rgia. Ainda que o rei, que sabia que D. Jorge da Costa continuava a intrigar no Vaticano em favor dos seus inimigos, embora tentasse manter a capa de respeitador do rei, n\u00e3o dispusesse de mais armas para se bater pela legitima\u00e7\u00e3o de seu filho, tudo continuou a tentar, s\u00f3 admitindo, na encosta final da sua vida, ceder na luta pela candidatura de D. Jorge ao trono, tentando uma via desesperada: a de casar-se novamente, tentando assim for\u00e7ar a cria\u00e7\u00e3o de um herdeiro cuja candidatura n\u00e3o fosse questionada e evitando que toda sua obra, conclu\u00edda e projectada, fosse oferecida aos seus inimigos. Mas a sua luta estava a chegar ao fim e todos o sentiam. Quando, respeitando os formalismos exigidos pela situa\u00e7\u00e3o, ditou o seu testamento, expressou, entre outras vontades, duas: a de que o seu sucessor, levado aos ombros at\u00e9 ao trono por grandes figuras com a ajuda de pequenos serventu\u00e1rios, se comprometesse a que uma futura filha sua casasse com D. Jorge e a de que a este fosse entregue o mestrado da Ordem de Cristo. O novo rei n\u00e3o satisfar\u00e1 nem um nem outro destes desejos. Se \u00e9 compreens\u00edvel que n\u00e3o satisfa\u00e7a o primeiro, mais compreens\u00edvel \u00e9 que n\u00e3o satisfa\u00e7a o segundo. A ordem de Cristo desde h\u00e1 muito que \u00e9 o basti\u00e3o dos que se op\u00f5em \u00e0 pol\u00edtica de D. Jo\u00e3o II e ao tipo de estado moderno que ele sempre defendeu e n\u00e3o poderia, nunca, ser entregue nas m\u00e3os do seu filho.<\/h4>\r\n<h4>D. Jorge organizou administrativamente as Ordens de Santiago e de Avis, para o que muito serviu a s\u00f3lida cultura que armazenou durante anos, ainda que tenha posto maior empenho em tudo o que diga respeito \u00e0 vida da primeira, na sede da qual viveu durante d\u00e9cadas. A\u00ed promoveu Ordena\u00e7\u00f5es e Visita\u00e7\u00f5es, como actualizou os Regulamentos das Ordens, para o que estudou os que eram observados nas Ordens espanholas cong\u00e9neres. Recorda-te da origem de uma, Ucl\u00e9s, e de outra, Calatrava. Mas\u2026 vendo que n\u00e3o tinha meios, nem o g\u00e9nio do pai, submeteu-se ao novo senhor que, em diversas ocasi\u00f5es mostrou com dureza que era ele quem mandava e tudo podia, salvo quando se curvava perante os Reis Cat\u00f3licos. Foi o que sucedeu quando D. Manuel levou a Castela, integrado na sua comitiva D. Jorge. Meu amigo viajante: n\u00f3s os cl\u00e9rigos de Santiago e muitos bons portugueses, sentimo-nos ent\u00e3o humilhados e profundamente ofendidos, porque o rei foi mostrar aos reis, que respeitava e temia, que tinha o filho do Homem dominado e submisso e dele n\u00e3o podiam partir os gestos de genial dignidade do pai. Pensei ent\u00e3o que os Reis Cat\u00f3licos ter\u00e3o acentuado a opini\u00e3o que j\u00e1 teriam de D. Manuel: a de que dele tamb\u00e9m n\u00e3o brotariam os gestos de genial dignidade t\u00e3o pr\u00f3prios do seu antecessor.<\/h4>\r\n<h4>Quando D. Jorge tiver percorrido a Via Crucis que os deuses, pouco generosamente, lhe destinaram, o Mestre, ent\u00e3o j\u00e1 vi\u00favo, apaixonar-se-\u00e1. Porque a mulher que ir\u00e1 escolher \u00e9 muito mais nova do que ele, o rei, que ser\u00e1 ent\u00e3o D. Jo\u00e3o III, figura que ser\u00e1 modelada pelas mesmas cartilhas que modelaram o pai, n\u00e3o consentir\u00e1 no enlace, que por isso n\u00e3o se chegar\u00e1 a realizar.<\/h4>\r\n<h4>Uma pergunta vejo nos teus olhos, eu, que tanto gostaria de poder responde-la, porque j\u00e1 muitas e muitas vezes tamb\u00e9m a fiz:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Que rei teria sido D. Jorge se o Pr\u00edncipe Perfeito tem sa\u00eddo vitorioso da sua derradeira luta?<\/h4>\r\n<h4>N\u00e3o tenho resposta e, pelo contr\u00e1rio, tenho outras perguntas a fazer:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Que Portugal seria o nosso? Continuar\u00edamos a cavalgar o sonho? Mais uma vez s\u00f3 os deuses nos poder\u00e3o responder. Mas n\u00e3o sou eu que lhes vou perguntar, porque estou triste com eles. Deixaram matar o Infante das Sete Partidas, deixaram morrer t\u00e3o cedo, e tamb\u00e9m s\u00f3 eles sabem como, o nosso rei Jo\u00e3o, o mais rei de todos os reis e agora, deixam ir, estrada fora, para lado nenhum, escoltado pelos que o amam mas prisioneiro de todas as for\u00e7as que o seu pai derrotou, o filho que, com a sua express\u00e3o triste mostra bem a dor que a sua alma grita por saber que todos n\u00f3s estamos tristes. Seu pai, no testamento, nesse derradeiro e supremo momento em que p\u00f4de apontar um caminho, f\u00ea-lo com profunda clareza, e todos n\u00f3s que o conhecemos, percebemos o que quis dizer quando doou o ducado de Coimbra a D. Jorge \u201cna forma e maneira que o rei D. Jo\u00e3o seu bisav\u00f4 a doou a seu av\u00f4 o Infante D. Pedro\u201d. O que aumenta a nossa tristeza por vermos que D. Jorge n\u00e3o pode com o peso de t\u00e3o grande miss\u00e3o. Os seus talentos, bem maiores do que os seus algozes propalam, n\u00e3o foram pelos deuses bafejados com a centelha do g\u00e9nio, nem a masmorra dentro da qual vive o consente. Por isso ali vai, levando consigo o resto das nossas esperan\u00e7as\u2026E quando chegar ao fim, mostrando bem que os bens materiais e as tolas honrarias n\u00e3o lhe interessam, o \u00fanico bem que vai deixar em testamento aos seus descendentes ser\u00e1 um pobre paul na pen\u00ednsula de Tr\u00f3ia.<\/h4>\r\n<h4>Com vagar, sem alegria, continuei a cumprir a minha miss\u00e3o andando, andando, vendo, vendo, tentando juntar o que vou ouvindo. E foi quando os desinteresses e os des\u00e2nimos apontavam para o pouco que vale a pena e quando o c\u00e9u, pardacento, com nuvens paradas, onde s\u00f3 uma vez por outra o sol irrompe e ilumina toda a paisagem, que chego junto de um jovem, de ar prazenteiro e despreocupado. Gosta de ter companhia e logo me diz porque est\u00e1 t\u00e3o alegre:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Vem a\u00ed D. Manuel e disseram-me os ventos que a sua comitiva tem muitos cavaleiros vestidos com grande luxo e, ainda me disseram mais: que irei ver coisas que nunca foram vistas no nosso reino.<\/h4>\r\n<h4>Fic\u00e1mos a aguardar a passagem do cortejo durante muito tempo. S\u00f3 depois perceberia porque demorou tanto. Finalmente irrompe; os cavalos, ricamente ajaezados, transportam homens da nobreza que, vindos de Bragan\u00e7a, Our\u00e9m, Barcelos e at\u00e9 de Castela, olham com arrog\u00e2ncia o mundo que \u00e0 sua volta sabem ser seu. Logo atr\u00e1s, m\u00fasicos competem entre si para levarem os sons para al\u00e9m das serranias, enquanto pelo meio deles bobos e tru\u00f5es tro\u00e7am dos outros e de si pr\u00f3prios em alta grita e com as momices que agradam aos senhores que lhes d\u00e3o de comer. Mas a minha surpresa, e a surpresa do meu jovem companheiro, aumenta quando vemos que alguns escravos trazem, seguros por grossas correntes, enormes animais que eu nunca vi. O rapaz, que estava mesmo ao meu lado, foi borrifado com perfume por um animal monstruoso, maior ainda do que os outros, o que o deixou maravilhado.<\/h4>\r\n<h4>S\u00f3 algum tempo depois consigo que me preste aten\u00e7\u00e3o. Pergunto-lhe:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas, no meio de todo aquele espavento, quem \u00e9 o D. Manuel?<\/h4>\r\n<h4>Pouco satisfeito por afastar, ainda que por um momento, a aten\u00e7\u00e3o do cortejo que tanto o entusiasma, responde-me:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Parece-me que \u00e9 o nobre que vai no meio dos outros, vestido com muito luxo, com um ar pesado e morti\u00e7o. Lembro-me agora melhor: \u00e9 ele de facto, tem o olhar matreiro de quem vai para onde os outros o querem levar mas que acaba sempre por conseguir o que quer, sem grande esfor\u00e7o.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas para qu\u00ea tanto luxo e tanta ostenta\u00e7\u00e3o?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Todas as cortes vivem assim. N\u00e3o sabes j\u00e1 como se vive no pr\u00f3prio Vaticano?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; \u00c9 verdade. Est\u00e3o esquecidos da import\u00e2ncia do esp\u00edrito, de que \u00e9 ele quem conduz os nossos passos e de que \u00e9 ele que avalia quem somos e o que fazemos. E mais devemos estranhar estes comportamentos quando nos lembramos de que muito do poder que estes nobres exibem foi conseguido atrav\u00e9s de alian\u00e7as com a Igreja e com as suas muitas formas de interferir na vida de todos n\u00f3s.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o te preocupes. J\u00e1 aprendemos que o mais importante \u00e9 o ouro. Quem tem ouro, pode ter tudo. E n\u00e3o foi por isso que D. Manuel fez com que os portugueses chegassem \u00e0 \u00cdndia?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o foi D. Manuel quem conseguiu que os portugueses chegassem \u00e0 \u00cdndia. Ele s\u00f3 aproveitou o que D. Henrique sonhou e projectou e, ainda mais, o que D. Jo\u00e3o concebeu e organizou. Arguto e dissimulado como \u00e9, colheu os frutos das \u00e1rvores que herdou e agora vai saboreando com deleite cada um. Como perceber\u00e1s, aproveita o manto da discri\u00e7\u00e3o para esconder a escassez dos seus m\u00e9ritos<\/h4>\r\n<h4>&#8211; \u00c9 o que o povo diz, mas isso para mim pouco interessa. Como tamb\u00e9m diz que foi feita justi\u00e7a nos que pretendiam aniquilar D. Jo\u00e3o, mas que resguardaram D. Manuel para o colocarem no trono logo que pudessem. Mas isso n\u00e3o me importa, o que me importa \u00e9 que \u00e9 no tempo de D. Manuel que c\u00e1 chega o ouro. E foi pelo ouro feito com especiarias que fomos \u00e0 \u00cdndia.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Alguns foram em busca da riqueza, mas outros tinham sonhos bem maiores.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o h\u00e1 sonho maior do que o de ser rico.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Digo-te que h\u00e1, e bem maiores. E \u00e9 por esses sonhos que deveremos estar prontos a morrer, para assim merecermos mais a vida.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o percebo.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; \u00c9 natural que n\u00e3o percebas. Naquele cortejo v\u00e3o muitos que tamb\u00e9m n\u00e3o percebem. S\u00e3o os que s\u00f3 conhecem esta vida pobre ainda que se vistam ricamente. Nunca perceber\u00e3o que h\u00e1 mais vidas. E essas outras vidas s\u00e3o bem mais dignas de serem vividas do que esta que D. Manuel e os que o rodeiam gozam para darem satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s suas vaidades, aos seus medos e \u00e0queles de quem dependem.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Mas tens de reconhecer que os meus sonhos podem ser diferentes dos teus. E que todos os sonhos nascem de quem somos. Sou muito novo mas j\u00e1 aprendi que as m\u00e1scaras, al\u00e9m de n\u00e3o nos deixarem respirar, enganam mais os que as usam do que os que as olham. Eu prefiro D. Manuel porque, enquanto D. Jo\u00e3o for\u00e7ava as circunst\u00e2ncias, ele ajusta-se \u00e0s circunst\u00e2ncias. Enquanto D. Jo\u00e3o desafiava, a cavalo, os Reis Cat\u00f3licos, D. Manuel, se necess\u00e1rio a p\u00e9, sujeita-se a ser um vice-rei dos Reis Cat\u00f3licos. Mas f\u00e1-lo calculadamente, casando e voltando a casar se necess\u00e1rio. \u00c9 verdade que tem muita sorte mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que, astutamente, evita guerras e confrontos e ainda mais os evita com quem tanto fez para o colocar no trono. Porque julgo perceber em que est\u00e1s a pensar, aceito que, com as suas capacidades pouco mais poderia fazer. Sempre tentou a coer\u00eancia, manobrando os seus, ainda que muitas vezes tenha sido ele o manobrado. Dentro dessa coer\u00eancia, naturalmente que guardou para si a Ordem de Cristo\u2026 Posso at\u00e9 profetizar que um dia ela ser\u00e1 entregue nas m\u00e3os de seu filho. Seria contra a corrente que tal n\u00e3o se viesse a verificar\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; E \u00e9 esta corte, com gente de muitos tipos que, como j\u00e1 provou, est\u00e1 disposta a tudo para impedir que a modernidade que D. Jo\u00e3o come\u00e7ou a impor cres\u00e7a, tanto mais que o povo, com muitos anos de queixas dos senhores, poder\u00e1 reagir a um retorno \u00e0s velhas tradi\u00e7\u00f5es onde os privil\u00e9gios germinam. Interessa por isso a estes senhores uma renova\u00e7\u00e3o que salve as apar\u00eancias mas que lhes respeite os bens e as mordomias.&nbsp;<\/h4>\r\n<h4>N\u00e3o podes esquecer que, logo que D. Jo\u00e3o fechou os olhos foram devolvidos solicitamente aos seus inimigos os bens que o rei lhes tinha confiscado.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Para mim \u00e9 bom que n\u00e3o haja guerras. E n\u00e3o ser\u00e3o com certeza os nobres apoiantes de D. Manuel que hostilizar\u00e3o Castela, aqui na pen\u00ednsula, nos mares ou em terras distantes. Porque conseguiram o que queriam, tronos, riquezas e a satisfa\u00e7\u00e3o dos seus orgulhos feudais. A for\u00e7a que os mant\u00e9m unidos, e que aparentemente \u00e9 muito superior \u00e0 que apoiava D. Jo\u00e3o n\u00e3o seguir\u00e1 D. Manuel se este tiver um assomo b\u00e9lico. Verdade seja dita que ele nunca ter\u00e1 nenhum assomo b\u00e9lico. O calculismo que determina todas as suas ac\u00e7\u00f5es n\u00e3o o permite. Ele tem sonhos de grandeza mas conhece bem at\u00e9 onde o talento e a for\u00e7a de \u00e2nimo o deixam ir.<\/h4>\r\n<h4>\u00c9 por tudo isto, igualmente determinado pelo meu calculismo, que eu gosto de viver no reinado de D. Manuel. J\u00e1 admiraste os belos monumentos que mandou construir? Como aqueles junto ao rio?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; J\u00e1. S\u00e3o de facto muito belos e aprecio que ele proteja as artes. Mas tal n\u00e3o \u00e9 suficiente para que eu o julgue um grande rei, muito menos quando o comparo com D. Jo\u00e3o. E a Hist\u00f3ria registar\u00e1 que, enquanto D. Jo\u00e3o construiu um templo de esperan\u00e7a na alma de um povo, D. Manuel est\u00e1 a cavar os caboucos para que nunca mais nos libertemos de uma acomodada e vil tristeza.<\/h4>\r\n<h4>N\u00e3o fiquei agradado com a conversa que mantive com o jovem que h\u00e1 pouco deixei para tr\u00e1s. Sinto que os interesses materiais se est\u00e3o a sobrepor aos interesses espirituais, que o que vemos e o que brilha \u00e9 mais importante para muitos do que o que nos conduz e nos eleva. A minha procura est\u00e1 por\u00e9m a chegar ao fim. J\u00e1 vi muito e julgo ter entendido algumas das muitas coisas, das que podemos entender, que est\u00e3o na origem de comportamentos que arrastam as vidas dos povos. Mas s\u00f3 algumas d\u00favidas afastei, muitas mais s\u00e3o as que guardo e, julgo, guardarei. E, agora mesmo vou tentar perceber um pouco melhor que papel foi destinado \u00e0s Ordens Militares e sopesar a forma como o desempenharam. Agora, porque quando o caminho come\u00e7a a alargar-se, rompe, ocupando toda a largura do caminho uma multid\u00e3o de cavaleiros que ostentam mantos, que ostentam espadas, que ostentam escudos e s\u00e3o acompanhados por homens a p\u00e9, muitos dos quais envergam h\u00e1bitos religiosos, que os seguem esfor\u00e7adamente<\/h4>\r\n<h4>Vejo que param ali adiante, talvez para descansarem um pouco. Vou falar com estes dois que ficaram para tr\u00e1s. Um \u00e9 cl\u00e9rigo, o outro \u00e9 um cavaleiro que se apeou. Aceitam falar comigo, digo-lhes quais s\u00e3o as minhas d\u00favidas. Com sobranceira relut\u00e2ncia, o cavaleiro antecipa-se e diz-me:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Sabes que j\u00e1 existiram muitas Ordens Militares e tamb\u00e9m sabes porque foram criadas. Aparentemente para proteger os peregrinos que se dirijam aos lugares santos, para conquistar ou defender os lugares santos e para lutarem contra os infi\u00e9is onde quer que se encontrem. S\u00e3o, de facto mais do que isso, e a Hist\u00f3ria de Portugal o prova. Come\u00e7aram por ser mil\u00edcias dependentes do Papa e que, no nosso caso, t\u00eam passado para o dom\u00ednio dos reis \u00e0 medida que a Reconquista avan\u00e7ou. Desde h\u00e1 anos que t\u00eam perdido fulgor e t\u00eam sido utilizadas em lutas pol\u00edticas. Mas n\u00e3o esquecemos que estivemos nos campos de batalha e nos descobrimentos.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; \u00c9 verdade, retorqui, mas sei que cada Ordem vive a Hist\u00f3ria de forma diferente. Ao progressivo apagamento das Ordens do Hospital e de Avis correspondeu uma maior actividade pol\u00edtica das outras duas. E devo dizer que me parece que h\u00e1 muito perderam de vista as raz\u00f5es que estiveram na origem da sua cria\u00e7\u00e3o. E pergunto-te, cl\u00e9rigo:<\/h4>\r\n<h4>\u2013 Um dos mais apregoados objectivos dos descobrimentos, nos quais participaram empenhadamente as Ordens, foi a evangeliza\u00e7\u00e3o. Que trabalhos t\u00eam as Ordens feito para evangelizar os povos dos territ\u00f3rios descobertos?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Nenhuns ou quase nenhuns. A evangeliza\u00e7\u00e3o tem sido feita por franciscanos e por dominicanos.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Pois muito me admira o que dizes, tanto mais que, em especial a Ordem de Cristo proclama o seu interesse pela espiritualidade. Ou ser\u00e1 que, foi justamente no tempo em que o Infante D. Henrique foi seu Governador, que a Ordem adoptou apetites mercantilistas que deram origem a que hoje, e julgo que assim acontecer\u00e1 no futuro, distribua com ambas as m\u00e3os comendas por quem j\u00e1 n\u00e3o pensa em guerrear e muito menos em evangelizar?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o est\u00e1s a ser justo. A Ordem de Cristo \u00e9 a que mais se interessa por assuntos espirituais e, creio, que tal ser\u00e1 reconhecido no futuro.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Sei que assim \u00e9; mas tamb\u00e9m sei que \u00e9 mais seguro apontar a heran\u00e7a quer patrimonial quer militar que receberam dos Templ\u00e1rios do que, expurgados os mitos, a heran\u00e7a espiritual. E n\u00e3o te esque\u00e7as de que das outras Ordens grande parte da documenta\u00e7\u00e3o que melhor poderia caracterizar a sua vida puramente religiosa e a que prolongava esta, desapareceu.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Parece-me que est\u00e1s a sugerir que a Hist\u00f3ria ser\u00e1 mais favor\u00e1vel no futuro \u00e0 Ordem de Cristo do que \u00e0s restantes.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Disso n\u00e3o tenho d\u00favida. Creio mesmo que toda a carga mitol\u00f3gica ser\u00e1 associada \u00e0 ordem de Cristo, por motivos leg\u00edtimos e por motivos for\u00e7ados, quer pelas circunst\u00e2ncias quer pelas manobras pol\u00edticas. E esta \u00e9 uma longa hist\u00f3ria escrita por muita gente, da qual se deu conta D. Jo\u00e3o, como muitas vezes demonstrou. E se gostas de espreitar para o quarto onde se juntam as d\u00favidas, dou-te mais uma raz\u00e3o para cogitares: quando em Set\u00fabal o Rei matou o Duque, foi o Mestre da Ordem de Santiago quem matou o Mestre da Ordem de Cristo.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o est\u00e1s a ir longe de mais?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Unicamente te convidei a espreitares\u2026<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Esqueces, ou parece que esqueces, que durante s\u00e9culos foi o Papa que, usando o seu poder atrav\u00e9s das bulas, exerceu a justi\u00e7a e impediu que as Ordens se degladiassem e criassem atritos, ou at\u00e9 convuls\u00f5es, nos reinos onde foi autorizada a sua ac\u00e7\u00e3o.<\/h4>\r\n<h4>-Mais uma sombra me permito colocar nas tuas c\u00f3modas certezas: a suprema hierarquia da Igreja, que a Europa respeitava, n\u00e3o s\u00f3 religiosamente como temporalmente, n\u00e3o conheceu sempre a solidez e a coer\u00eancia que muitos hoje apregoam.<\/h4>\r\n<h4>E os desvios e as oscila\u00e7\u00f5es que abanaram o trono pontif\u00edcio, foram aproveitados pelos pol\u00edticos mais perspicazes como aconteceu, e lembro-to: quando Portugal apoiou Avinh\u00e3o em 1380, para no ano imediato se bandear para Roma, para logo em 1382 seguir novamente Avinh\u00e3o no tempo do antipapa Clemente VII, at\u00e9 que, finalmente, em 1385 decidiu, depois de tudo ter sido medido e pesado, seguir o Papa Urbano. E acentuo, depois de tudo medido e pesado.<\/h4>\r\n<h4>O cavaleiro, que nos estava a ouvir com impaci\u00eancia, decidiu intervir com um gesto brusco e com alguma arrog\u00e2ncia:<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Viandante, que buscas o que n\u00e3o podes entender: olha toda aquela cavalgada. Com ela vai a Hist\u00f3ria. Com ela v\u00e3o reis e nobres, com ela v\u00e3o os que morreram pela sua f\u00e9, com ela v\u00e3o os que levaram a cristandade ao fim dos oceanos. Que importa que uns tenham sido melhores do que outros e que muito tenha ficado por fazer? Fomos e fizemos o que Nosso Senhor determinou.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; N\u00e3o o questiono. O que quero \u00e9 a verdade. \u00c9 a sua procura que me leva nesta viagem e, muito do que se diz sobre as Ordens \u00e9 uma verdade moldada, ajustada a interesses e, como sabes, quem escreve a Hist\u00f3ria poucas vezes \u00e9 quem faz a Hist\u00f3ria.<\/h4>\r\n<h4>E as Ordens que se acolher\u00e3o com a morte de D. Jorge todas ao rega\u00e7o real, j\u00e1 pouco t\u00eam de militares e muito pouco t\u00eam de religiosas, o que, por muito que te custe, prova que a espiritualidade de que se ufanam n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante como apregoam. Os poderosos, papas e reis, serviram-se delas, e quando j\u00e1 n\u00e3o lhes s\u00e3o de grande pr\u00e9stimo, deixam-nas tombar, como tantas vezes j\u00e1 lhes tinha acontecido e isto s\u00f3 seria evitado se tivessem criado vida e cultura pr\u00f3prias, o que nunca aconteceu. Suspeito que ainda te conduza a uma desilus\u00e3o se te disser que, quando os Templ\u00e1rios foram extintos, sem luta nem gl\u00f3ria, nada ficou a recordar a sua exist\u00eancia, salvo um belo manancial de lendas e de interpreta\u00e7\u00f5es nem sempre rigorosas que, embora fundadas na sua riqu\u00edssima heran\u00e7a m\u00edstica, tomam por vezes a nuvem por Juno.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Est\u00e1s a ser, mais uma vez profundamente injusto e at\u00e9 a denunciar que sabes pouco destes assuntos.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Justamente por reconhecer que sei pouco \u00e9 que ando a calcorrear montes e vales. E por isso fa\u00e7o perguntas. Como as que te vou fazer de seguida: &#8211; Cr\u00eas que, quando D. Diniz, avisadamente, chamou a si o poder e o patrim\u00f3nio dos Templ\u00e1rios, que conseguiu que fossem crismados de Ordem de Cristo, o fez pensando na sua espiritualidade? Acreditas que D. Henrique utilizou, durante quarenta anos, a Ordem de Cristo s\u00f3 pela espiritualidade que nela se respirava? Ent\u00e3o porque motivo, quando morreu o Infante, a Ordem perdeu grande parte da sua express\u00e3o? E D. Jo\u00e3o II, ao tirar da margem para onde tinha sido atirada a Ordem de Santiago, ao estrutura-la e ao servir-se dela f\u00ea-lo tamb\u00e9m por for\u00e7a da sua espiritualidade? Ou, por fim, inspirado pelos ventos que continuam a soprar dos mesmos quadrantes, insistes em colocar no plinto do misticismo uma s\u00f3 Ordem?<\/h4>\r\n<h4>&#8211; A todas essas perguntas poderia dar resposta, mas n\u00e3o a dou porque j\u00e1 sabes qual \u00e9. Julgo todavia que tenho o direito de te fazer, eu, uma s\u00f3 pergunta: &#8211; N\u00e3o foste tu quem ao come\u00e7ar esta caminhada disse que iria dispensar a racionalidade? Se ainda persistes na mesma inten\u00e7\u00e3o deves perceber que n\u00e3o podes julgar o que foram, ou n\u00e3o foram as Ordens religiosas e militares unicamente pelo que fizeram mas pelo que significaram e, para muitos significar\u00e3o durante s\u00e9culos.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Aceito, ainda que n\u00e3o aprecie muito o modo como voc\u00eas evitam as discuss\u00f5es, saltando num momento para o terreno onde os outros n\u00e3o s\u00e3o tolerados. Seja como for, e a conversa ser\u00e1 mantida por muita gente durante muito tempo, digo-te que vos respeito mas que continuo a pensar que poderiam ter sido muito mais do que foram se, no terreno que tamb\u00e9m \u00e9 o vosso, o da espiritualidade, deixassem obra mais s\u00f3lida e duradoura.<\/h4>\r\n<h4>&#8211; Os cavaleiros e os cl\u00e9rigos est\u00e3o a afastar-se. Temos de nos juntar a eles. N\u00e3o te esque\u00e7as do que te disse.<\/h4>\r\n<h4 align=\"justify\">A.T.R.<\/h4>\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>If we were to escape to the poor cubicle of rationalities, where nothing is produced or reproduced other than the fact that we think it is there that everything is produced and reproduced, we would live in a single world where cold stone walls would prevent us from seeing that it is beyond them that there is more sun and more moon.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3939,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0},"categories":[109,110],"tags":[119,121,116,120,122],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4720"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4720"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4720\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4742,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4720\/revisions\/4742"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3939"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.gcmrep.pt\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}