O Rito da Maçonaria Críptica : percurso atribulado de um itinerário histórico

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O Rito da Maçonaria Críptica : percurso atribulado de um itinerário histórico

Entre o Rito Escocês Antigo e Aceite e o Arco Real de York

O grau de Mestre Escolhido, sob a denominação de Maçom Escolhido dos Vinte e Sete, foi conferido em Charleston, Carolina do Sul, em 1783, sendo essa provavelmente a mais antiga ocasião em que qualquer grau dito críptico foi trabalhado na América.

Uma das mais antigas investigações históricas sobre a génese destes graus foi realizada por uma comissão do Grande Capítulo de Maçons do Arco Real da Carolina do Sul para determinar se esta potência maçónica tinha controle legítimo sobre eles, então sob sua administração tutelar, produzindo um relatório conclusivo, datado de 26 de Fevereiro de 1829.

O momento histórico desta investigação foi suficientemente tardio para permitir à comissão cair no erro comum de relacionar conjuntamente os dois graus e atribuir ao de Mestre Real uma existência aparente no Sul dos Estados Unidos mais antiga do que os factos garantiam.

O relatório concluía que: a) em Fevereiro de 1783, o médico inglês Dr. Frederick Dalcho [1770-1836], o médico norte-americano Dr. Isaac Auld [1769-1826], o Dr. James Moultrie Sr. [1766-1836] e Moses C. Levy [três dos quais se encontravam ainda vivos em 1829] tinham recebido os graus na Loja de Perfeição de Charleston; b) que Joseph M. Myers, um dos Delegados que estabeleceram o Conselho de Príncipes de Jerusalém em Charleston, em 20 de Fevereiro de 1788, designado por Moses Michael Hayes como Inspector Geral do Rito de Perfeição ou de Heredom para o Estado de Maryland, depositou nos seus arquivos cópias certificadas dos rituais do grau de Mestre Real e [de] Mestre Escolhido de Berlim; c) que, desde 1788, o Rito de Perfeição em Charleston tinha conferido regularmente os graus; d) que, em 1828, vários Conselhos de Mestres Escolhidos estavam activos.

A comissão relatou ainda que tinha visto e lido a primeira cópia dos rituais dos graus que fora transmitida à América, bem como cópias das antigas cartas patentes que tinham sido entregues quando os Grandes Conselhos estaduais foram constituídos. Acrescente-se ainda que, aparentemente, o próprio Presidente da Comissão, o médico e historiador maçónico norte-americano Dr. Moses Holbrooke [1783-1844], transmitiu para a posteridade uma cópia manuscrita dos rituais dos graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido, acompanhada de uma nota manuscrita autógrafa, datada de 25 de Março de 1830, citando o livro do Irmão Snell, onde podemos ler o seguinte: “Sede do Supremo Conselho, Charleston, Carolina do Sul, 10 de Fevereiro de 1827. Eu, pela presente, certifico que os graus destacados, chamados Mestre Real e Escolhido ou Maçons Escolhidos dos Vinte e Sete, foram regularmente dados pela Sublime Grande Loja de Perfeição [nº 2 nos Estados Unidos da América], estabelecida pelo Irmão Isaac da Costa em Charleston, em Fevereiro de 1783, um dos membros originais dos quais o Muito Ilustre Moses C. Levy é ainda vivo e membro dela até este dia.(…) O Irmão [Joseph] Myers, brevemente depois disto [20 de Fevereiro de 1788] residiu algum tempo em Norfolk, Richmond e Baltimore, antes da sua retirada para a Europa, onde comunicou o conhecimento dos graus a um número de irmãos naquelas cidades. A cópia original está ainda à minha guarda e concorda com as obrigações do mesmo e com as Grandes Constituições que governam esses graus, a saber Maçons Reais e Escolhidos dos Vinte e Sete, é por isso correcto e legítimo dá-los tanto a Maçons Sublimes que chegaram ao Cavaleiro do Nono Arco [13º] ou a Companheiros do Terceiro Arco [Maçons do Arco Real].”

Neste breve relato, verifica-se alguma confusão de nomes e títulos, já que a investigação posterior tem demonstrado que as potências maçónicas de Charleston não possuíam o grau de Mestre Real naquele período primitivo e é improvável que Joseph Myers tenha depositado um ritual desses graus nos arquivos do Grande Capítulo de Maçons do Arco Real do Estado da Carolina do Sul, nem está estabelecido que tal grau tenha sido importado de Berlim ou até da Europa.

Por outro lado, depois de 1788, o grau de Mestre Escolhido foi regularmente conferido em Charleston, onde Conselhos desse grau estavam activos, em 1828. Além disso, na recomendação final do relatório da comissão, o Grande Capítulo de Maçons do Arco Real do Estado da Carolina do Sul renunciou à custódia dos graus crípticos em 1829.

O investigador maçónico Dr. William L. Cummings, de Nova Iorque, possuidor de um dos rituais originais importados por Etienne Morin, bem como de uma das maiores colecções gerais de rituais maçónicos manuscritos, afirmava que apenas Maçons Escolhidos dos Vinte e Sete ou, posteriormente, o grau de Mestre Escolhido, estava em uso em Charleston no séc. XVIII e que o de Mestre Real nunca fora conferido com o de Mestre Escolhido senão depois de 1821, e então, primeiro em Nova Iorque.

Esta afirmação é confirmada pela History of Freemasonry do médico e historiador maçónico norte-americano Dr. Albert Gallatin Mackey [1807-1881] [W. R. Singleton, Vol. VI, p. 1556], onde, citando o também historiador maçónico norte-americano Edward T. Schultz, na sua já referida History of Freemasonry in Maryland [Vol. I, pp. 335-344], afirma que Moses Holbrooke se enganou em 1829, quanto ao grau de Mestre Real, já que esse grau foi inicialmente trabalhado nos Estados do Norte.

Sequencialmente, a cidade de Savannah, Geórgia, é o próximo lugar onde se encontram marcas da presença do grau de Mestre Escolhido, pois Moses Cohen, em 9 de Novembro de 1790, emitiu para Abraham Jacobs um diploma de tutela do grau de Maçons Escolhidos dos Vinte e Sete, e o diário de Jacobs relata a sua visita àquela cidade em 1792 e a sua conferência desse grau em vários lugares daquele Estado, tendo recebido os graus principais e laterais do Rito de Perfeição em Kingston.

Em Baltimore, Maryland, o grau de Mestre Escolhido e nenhum outro parece ter estado sob a tutela conjunta de Phillip P. Eckel, que o recebeu numa Loja do Rito de Perfeição, e de Hezekiah Niles. Um antigo documento assinado por ambos autorizou uma terceira pessoa a abrir e manter um Capítulo em Baltimore, explicitando: Visto que, no Ano do Templo do Senhor de 2792 [A.[nno] D.[omini] 1792], o nosso Três Vezes Ilustre Irmão Henry Williams, Grande Eleito, Escolhido, Perfeito Sublime Maçom, Grande Inspector Geral, e Grão Mestre de Capítulos do Arco Real, da Loja de Grande Eleito e de Mestre Perfeito, e dos Conselhos de Cavaleiros do Oriente, Príncipe de Jerusalém, Patriarca Noaquita, Cavaleiro do Sol, e Príncipe do Real Segredo, por virtude dos poderes nele legalmente investidos, estabeleceu, ordenou, erigiu e apoiou um Grande Conselho de Maçons Escolhidos na cidade de Baltimore (…).

Concretamente, Henry Williams era um maçom nativo da cidade alemã de Bremen que emigrou para Baltimore em 1790, tornando-se Mestre credenciado com uma carta patente da Loja Concórdia em 1793 e, no mesmo ano, Grão Mestre Delegado da Grande Loja de Maryland, sucedendo no cargo de Grão Mestre da mesma no ano seguinte e morrendo em 1795. A fonte informativa desta autoridade documental sobre o grau de Mestre Escolhido é desconhecida, mas, no entanto, verifica-se simplesmente constituir o privilégio indubitável de um Inspector Geral do Rito de Perfeição conferir graus laterais.

Adicionalmente, o já citado Dr. Albert Gallatin Mackey [op. cit., p. 1557], concluiu ainda que enquanto o grau de Mestre Real ou Escolhido dos Vinte e Sete parece ter sido conferido em vários lugares antes de 1792, devemos concluir que a organização de um Conselho de Maçons Escolhidos em Baltimore por Phillip P. Eckel e Hezekiah Niles, sob a autoridade de Henry Williams, foi o primeiro esforço organizado para propagar o Rito na América. [Hezekiah] Niles, escrevendo em Ahiman Rezon [ou o Livro das Constituições da Grande Loja de Maryland] em 1827, afirmou que lhe tinham dito que um Capítulo regular do grau de Mestre Escolhido fora mantido em Charleston muitos anos antes, mas que tinha adormecido, e que não estava consciente que o grau era então trabalhado apenas em Baltimore.

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