O Rito da Maçonaria Críptica : percurso atribulado de um itinerário histórico

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O Rito da Maçonaria Críptica : percurso atribulado de um itinerário histórico

Identidade litúrgica e independência administrativa

Por outro lado, o grau de Mestre Real, surge mencionado apenas em algumas referências dispersas anteriores ao ano de 1804, quando se afirmava que Abraham Jacobs se transferiu para Nova Iorque e conferiu o grau a Thomas Lownds. Na History of Masonry do historiador maçónico norte-americano Robert Freeke Gould [1836-1915], [Scribner, Vol. I, p. 300], afirma-se que o relato autoritatário mais antigo do funcionamento do grau ocorre justamente nos registos do Conselho Columbian nº 1, de Nova Iorque, em 1807.

Tem-se afirmado, embora com dúvidas, que o dignitário maçónico norte-americano dissidente Joseph Cerneau conferiu o grau de Mestre Real a Thomas Lownds em 1807 e que o maçom e jornalista canadiano John Ross Robertson [1814-1918], na sua obra History of the Cryptic Rite [Toronto, 1880], declarou que começou em 1808, a disputa entre [o mercador helvético-americano John James] Gourgas e Joseph Cerneau. [Thomas] Lownds apoiou o último e passou para o seu lado, levando, assim, disse Gourgas, os graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido. O crédito para organizar o primeiro corpo do Rito Críptico deve ser dado a [Thomas] Lownds. Que formou, com outros, certamente, em 2 de Setembro de 1810, o Grande Conselho Columbian de Mestres Maçons Reais. Em 8 de Dezembro de 1821, o Grande Conselho de Columbian de Mestres Maçons Reais, recebe um Conselho de Mestres Escolhidos. Em 25 de Janeiro de 1823, o Grande Conselho Columbian constituíu-se a si próprio um Grande Conselho para o Estado [de Nova Iorque], emitindo diplomas até 1827.

Deste modo, esta agregação conjunta permanente dos dois graus, no Grande Conselho Columbian, parece ter sido o primeiro corpo organizado de Mestres Reais e Escolhidos, começando a credenciar Conselhos subordinados com cartas patentes em 1823, criando-se então o Conselho Principal de Mestres Reais e Escolhidos para o Estado de Nova Iorque.

O investigador maçónico norte-americano William L. Cummings verificou documentalmente que:
a) os graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido foram conferidos como companheiros associados pela primeira vez em 1810; b) o Conselho Columbian nº 1 trabalhou só no grau de Mestre Real até 1817, quando o trabalho cerimonial de Super Excelente Mestre foi adoptado;
c) em 1817, Thomas Lownds criou um Conselho de Mestres Escolhidos ao conferir o grau a 10 irmãos que eram maioritariamente membros do Conselho Columbian nº 1; d) uma semana depois, o novo corpo maçónico fundiu-se com o Conselho Columbian nº 1 e que o corpo fundido conferiu os três graus ou Ordens na ordem sequencial aparente de Mestre Real, Super Excelente Mestre e Mestre Escolhido.

No entanto, Thomas Lownds permaneceu como Mestre do Conselho Columbian nº 1 por vários anos e, diz-se, que, antes da adopção do grau de Mestre Escolhido, aquela potência conferiu diversos outros graus laterais, tais como a Ordem da Jarreteira, a Ilustre e Invencível Ordem de S. Jorge na Capadócia e Cavaleiro da Távola Redonda preservando-se hoje apenas o ritual do último dos três graus laterais referidos.

Em 25 de Janeiro de 1828, numa Convenção propositadamente convocada, o Grande Conselho de Mestres Reais e Escolhidos de Nova Iorque foi fundado, existindo, posteriormente, outro Grande Conselho, em 1854, composto por aderentes da cismática Grande Loja de S. João. Diz-se também que Phillip P. Eckel, natural de Baltimore, não recebeu o grau de Mestre Real até 1819, altura em que o recebeu através do maçom Wadsworth, natural de Nova Iorque.

Edward T. Schultz, na sua já referida, History of Freemasonry of Maryland [Vol. I, p. 344], afirma que o grau de Mestre Real foi primeiro conhecido e trabalhado nos Estados [norte-americanos] orientais, enquanto o grau de Mestre Escolhido foi inicialmente conhecido, e numa data muito anterior, nos Estados meridionais e centrais.

Toda esta contextualização permite esclarecer compreensivelmente que o grau de Mestre Escolhido e, posteriormente, o de Mestre Real eram graus laterais do Rito Escocês Antigo e Aceite, sendo frequentemente conferidos por Delegados do Supremo Conselho da Jurisdição Sul, dos quais os mais proeminentes eram Jeremy Ladd Cross (1783-1861) e John G. Barker.

Jeremy Ladd Cross recebeu de Thomas Lownds o grau de Mestre Real e de Phillip P. Eckel e de Hezekiah Niles o grau de Mestre Escolhido em 1816 e disseminou-o itinerantemente através dos Estados da Pensilvânia, Ohio, Kentucky, Mississipi, Louisiana, Delaware, Nova Iorque, Nova Hampshire, Vermont, Nova Jérsia e Virgínia, constituindo irregularmente 33 Conselhos de Mestres Escolhidos mediante uma carta patente provavelmente falsa datada de 27 de Maio de 1817, assinada por Phillip P. Eckel e assumindo o título de Único Ilustre e Grande Poderoso do Principal Conselho de Mestres Escolhidos de Baltimore. O primeiro conferiu o grau apenas a Mestres do Arco Real, ao passo que os outros julgaram-no introdutório a esse mesmo grau capitular e conferiram-no a Mestres Maçons de Marca.

Em 1817, Jeremy Ladd Cross formou um Conselho de Mestres Escolhidos em Windsor, Vermont, e John Barker estabeleceu Conselhos em Alabama e Mississipi. Jeremy Ladd Cross recebeu o grau de Mestre Real e conferiu ambos os graus em Connecticut nesse ano, encontrando-se aí então o primeiro Conselho de Mestres Reais e Escolhidos, de seu nome, New Haven nº 10, valendo-lhe a sua actuação geradora e expansionista o estatuto mundial de fundador da Maçonaria Críptica. Posteriormente, surgiram os Grandes Conselhos de Connecticut, em 1819, Virgínia, em 1820, e Carolina do Norte, em 1822, entre outros.

Em 1817, o Grande Capítulo de Maçons do Arco Real do Estado de Maryland autorizou os seus Capítulos a conferirem o grau de Mestre Escolhido e, dez anos depois, enviou uma circular recomendando que outros Grandes Capítulos assumissem o controle do grau de Mestre Escolhido, embora o Grande Capítulo do Arco Real da Carolina do Sul tenha renunciado aos graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido em 1829.

Por seu turno, também em 1829, o Grande Capítulo do Arco Real do Distrito de Columbia assumiu o controle dos graus crípticos. No mesmo ano, o Grande Capítulo Geral dos Mestres Maçons do Arco Real dos Estados Unidos da América decidiu que os graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido deveriam ser colocados sob a tutela dos Grandes Capítulos estaduais.

Após 1827, e durante alguns anos, quer os Grandes Conselhos independentes de Mestres Reais e Escolhidos, quer os Capítulos independentes do Arco Real, combatiam pelo controle exclusivo ou partilhado dos graus crípticos. Paralelamente, Inspectores Gerais Delegados [tais como o liturgista maçónico norte-americano John Barney (1780-1847), do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite de Charleston] autorizavam o funcionamento de Conselhos de Mestres Reais e Escolhidos e de Conselhos de Príncipes de Jerusalém [16º grau].

Em 1847, o Grande Capítulo Geral autorizou Capítulos a conferir os graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido em Estados norte-americanos onde não existisse qualquer Conselho do Rito Críptico e, em 1850, o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite da Jurisdição Norte emitiu um Decreto reivindicando os graus de Mestre Real e de Mestre Escolhido como senda da sua exclusiva propriedade, providência esta que foi repetida pelo Supremo Conselho da Jurisdição Sul.

Em 1853, o Grande Capítulo Geral do Arco Real dos Estados Unidos da América, assim como o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite da Jurisdição Sul, em 1870, reverteram a sua posição e renunciaram à sua reivindicação de tutela dos graus crípticos. No entanto, e apesar disso, o Grande Capítulo do Arco Real do Estado de Maryland [até 1872] e o Grande Capítulo do Arco Real do Estado da Virgínia [de 1841 até à segunda metade do séc. XX] mantiveram a sua reivindicação dos graus crípticos, tal como o Grande Capítulo do Arco Real do Estado da Virgínia Ocidental, após a sua constituição.

Apesar da renúncia, em 1853, do Grande Capitulo do Arco Real dos Estados Unidos, Jurisdição Sul, sobre os graus crípticos, alguns Grandes Capítulos estaduais do Arco Real assumiram eles mesmos, a tutela dos graus crípticos: Texas, entre 1864 e 1907 [com uma relação mais próxima entre Capítulos e Conselhos do que em qualquer outro Estado dos EUA]; Illinois, entre 1877 e 1882; Mississipi, entre 1877 e 1888; Kentucky, entre 1878 e 1881; Arkansas, entre 1878 e 1881; Wisconsin, entre 1878 e 1881; Nebraska, entre 1878 e 1886; Carolina do Sul, entre 1880 e 1881.

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